Há um ano, em 9 de janeiro de 2014, morria Luara Prieto Ribeiro, de 25 anos, após uma saga de oito passagens pelo Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” e duas cirurgias na Santa Casa de Misericórdia de Franca. A causa da morte da jovem seria uma hemorragia, segundo laudo do IML (Instituto Médico Legal), mas o que ocasionou o sangramento ainda é uma incógnita. Os pais de Luara sofrem até hoje sem respostas, já que o Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) ainda investiga o caso e a Polícia Civil aguarda posicionamento do Conselho para concluir sua investigação. Questionados ontem, Prefeitura e Santa Casa se calaram sobre o caso.
“Não posso nem começar a falar sobre Luara que começo a chorar. Foi um ano difícil. Agora eu vejo o mundo mais preto e branco do que colorido. A gente era companheira uma da outra. Às vezes, ela virava minha mãe, me dava conselhos. Perdi minha filha, minha mãe, minha amiga, minha irmã”, disse aos prantos a mãe de Luara, a merendeira Márcia Prieto, que não teve outros filhos. Ela conta que apesar das recomendações da psicóloga, ainda não conseguiu desfazer o quarto da filha na casa onde moravam juntas, no Parque dos Pinhais.
“Abro o quarto dela, limpo, mas ainda não quis mexer em nada lá. A lembrança dela vem a todo momento. Às vezes, parece que eu não estou na realidade, que vou acordar e nada disso vai ter acontecido. Mas, então, percebo que é real.”
O pai de Luara, o comerciante Silson Ribeiro, também chorou ao falar sobre a falta que sente da filha. “A saudade dela é grande. Parece que cada dia fica mais forte. Fico imaginando que ela poderia estar aqui comigo se ela tivesse tido um atendimento melhor.”
Os pais, amigos e familiares devem participar hoje de uma missa pelo primeiro aniversário de morte de Luara, marcada para as 19 horas, na igreja Nossa Senhora das Graças. “Vamos usar camisetas. Queremos prestar uma bonita homenagem a ela, pois só nos resta buscar forças em Deus”, disse Silson.
Luara morreu depois de ter passado oito vezes pelo Pronto-socorro “Álvaro Azzuz” e duas pela Santa Casa em um período de 20 dias. Na época, os médicos disseram que ela estava com infecção urinária. O quadro de Luara se agravou e ela acabou sendo internada. Luara chegou a passar por duas operações e não resistiu. Os médicos que a atenderam disseram que a causa da morte foi uma infecção, mas o laudo da autopsia feito por um perito do IML apontou uma hemorragia e não encontrou indícios de infecção.
Investigação
O caso de Luara está sendo investigado pelo Cremesp e pelo delegado Luiz Carlos da Silva, titular do 1º Distrito Policial. O Conselho informou em nota, ontem, que investiga a morte da jovem, mas casos como o de Luara “são sindicâncias demoradas, pois temos que ouvir todos os envolvidos. Assim que estiverem finalizadas, faremos um comunicado a respeito”. Já o delegado Luiz Carlos disse que a parte policial de sua investigação está completa e que ele aguarda a conclusão do Cremesp para dar seu parecer sobre o caso.
Na época da morte de Luara, a Prefeitura de Franca informou que havia aberto uma sindicância para apurar o ocorrido. Procurada ontem pela reportagem do Comércio, por e-mail e telefone, a secretária de Saúde, Rosane Moscardini, não se pronunciou sobre o assunto ou atendeu as ligações. A Santa Casa também foi procurada, através de sua assessoria de imprensa, mas não comentou o caso até o fechamento desta edição.
Os pais de Luara entraram, em dezembro do ano passado, com uma ação por danos morais contra a Prefeitura e a Santa Casa na Vara da Fazenda Pública de Franca. O processo pede R$ 250 mil de indenização. “Entramos com o processo pois acreditamos no erro médico. A indenização que pedimos é de caráter punitivo, e não indenizatório”, disse o advogado Tiago Carrera.
“Não quero dinheiro, isso não vai me trazer alegria, pois o dinheiro não vai trazer minha filha de volta. Só quero que não aconteçam outros casos. Quero justiça”, comentou Márcia.
Outros casos
Além dos pais de Luara, a família de outras sete pessoas, que morreram após atendimento na rede pública, acusam instituições de saúde de negligência.
Kelly Cristina Souza, 27, morreu em 13 de novembro de 2013 após diversas idas ao “Azzuz” sofrendo de problemas no estômago. Ela foi encontrada desacordada no banheiro da Santa Casa, onde estava internada para uma cirurgia de retirada da vesícula.
Clésia de Araújo Novais, 31, recebeu uma dose de glicose no PS, mesmo sendo diabética, e entrou em choque. Ela morreu em 20 de fevereiro de 2014, após passar dias em coma.
Francisca Firmina da Silva, 47, morreu em 4 de março de 2014, 30 minutos depois de receber alta no “Álvaro Azzuz”. Ela chegou ao PS com sintomas de infarto, mas os médicos disseram ser pneumonia, a medicaram e depois a liberaram.
Lúcia Modesto de Souza, 51, morreu em 28 de maio do ano passado, nove dias após passar por uma cirurgia na vesícula, por intermédio da Prefeitura de Franca, na Santa Casa de São Joaquim da Barra. Ela aguardava uma nova cirurgia na Santa Casa de Franca quando morreu.
Jean Carlos da Silva, 39, morreu em 31 de maio, um dia após passar pelo PS com dores no peito e ser diagnosticado com “crise de ansiedade”.
Valter Júlio de Andrade tinha um quadro de pneumonia e sofreu três paradas cardíacas. Ele morreu em 10 de junho de 2014 após esperar oito horas por uma vaga na UTI.
Renato Rodrigues de Oliveira, 36, morreu em 18 de outubro após diversas idas ao “Azzuz” com quadro de meningite. Ele teve os pedidos de internação para tratar a doença negados.
Ontem, a Prefeitura e a Santa Casa não se pronunciaram sobre os sete casos de mortes suspeitas na rede pública. O Cremesp disse que investiga todas as ocorrências.
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