O monstro do guarda-roupa


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O olho apertadinho de medo do menino não cogitava a possibilidade de se abrir, o menino menos ainda mostrava algum interesse em forçá-lo. Contrariado em sua vontade e cheio de curiosidade abriu os olhos de soslaio e fitou o canto do guarda-roupa que estava com a porta entreaberta. 
 
A sombra vinda da janela desenhava algo que parecia mesmo aterrorizante com direito a garras e o contorno maltrapilho de um monstro esfarrapado. A janela ficava logo acima do criado mudo e de lá entrava um pouco de luz no quarto.
 
Julinho estava tão pálido quanto a parede branca, encheu-se de coragem e disse:
 
- Seu monstro do cantinho do armário, gostaria de dizer que respeito muito o senhor.
 
Ao terminar a frase o Julinho começou a imaginar como seria esse “monstro senhor”. Se usaria um velho chapéu como seu avô e um terno alinhado ou parecer-se-ia mais com os velhos que jogam baralho na pracinha. A imaginação dele voou tão rápido que por instantes teve a certeza de que aquele monstro no cantinho do armário possuía duas asas. Inquieto e sem ter respostas indagou o escuro mais uma vez:
 
-Seu monstro, sua família é muito grande?
 
Flertou o silêncio, arredou dos olhos a coberta que lhe cobria até o nariz, escutou um arranhado e teve certeza de que o monstro tinha um gato.
 
-O seu gato puxa as suas asas?
 
Desta vez não aguardou a resposta, sentou na cama, cruzou as magras pernas como um pequeno índio, e prosseguiu na conversa:
 
-Sabe o que é, seu monstro, eu tinha um gato que arranhava o sofá. Aquele danado arranhava tudo e ele adorava caçar passarinho. Era um danadinho, o senhor precisava ver. Acho que o senhor deve ser tímido, não é?
 
Com essa conclusão, achou que o monstro afinal não era assim de todo mau. Júlio nunca havia conhecido alguém tímido e malvado, pelo contrário, as pessoas tímidas do convívio do menino eram todas muito gentis. O garotinho sentiu a garganta seca após tanto tagarelar e decidiu descer as escadas em busca de um copo d’agua.
 
- Vou tomar uma água, o senhor aceita?
 
Calçou os chinelinhos e foi pelo corredor sozinho, passou pelo quarto dos pais e escutou alguém roncar, acendeu a luz da cozinha e matou a sua sede. Subiu novamente levando um copo de água fresquinha na mão, acendeu a luz e caminhou até o canto entre a porta meio aberta do guarda-roupa e o canto da parede.
 
-Beba essa água, eu trouxe para o senhor.
 
O monstro estendeu a sua mão enrugada e de unhas afiadas, na realidade era um monstro bem baixinho e não tinha asas nem gato, quem arranhava a janela. Era ele mesmo que não enxergava bem a vidraça e procurava os óculos que perdeu.
 
Pegou á agua e agradeceu tirando o chapéu, o menino deu-lhe os óculos e se deitou na cama para dormir, mas antes disse em tom de conselho:
 
-Boa noite, seu monstro, fique à vontade, na próxima vez que perder os óculos acenda a luz ou peça a minha ajuda.
 
 
Por: Milla Souza

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