Que aconteceu com o paraíso terrestre descrito por Pero Vaz de Caminha e Américo Vespúcio? O primeiro, ao redigir a ‘certidão de nascimento’ do Brasil, narrou fabuloso conjunto que comoveu o imaginário e voluptuosa ganância do europeu do século XVI, um Éden que onde. plantando, ou parasitando, ‘tudo dá’. A visão paradisíaca de Vespúcio e de Vaz de Caminha (terra de bons ares, abundantes águas, árvores exuberantes, animais exóticos, e ainda habitada por ‘gentis’ humanos) não passou de flash. Não podiam os escribas imaginar o que viria a ser implantado no ‘paraíso’: uma organização social cruel, desumana, genocida, desigualitária, parasitária e denodadamente tolerante e praticante da corrupção, a cleptocracia, que é o Estado cogovernado por ladrões. Faltou-lhes um pouco de malícia. Não existe paraíso sem pecado.
Daquele paraíso imaginário e dócil pouca coisa sobrou. Suas águas, árvores, animais e bons ares foram ou estão sendo destruídos impiedosamente. Paralelamente, foi se construindo outro Brasil, diabólico e infernal: o cleptocrático que acabo de descrever, e pior ainda: o da plutocracia — governo das grandes riquezas —, da genocidiocracia — governo regido por violação massiva de direitos fundamentais e extermínio permanente de pessoas. Em todas as classes sociais, corrupção, imoralidade e vício se generalizaram. Ao longo da história, poucos apareceram na administração pública para propagar bons princípios. O grau de corrupção de um país depende da tolerância social da população. Nas democracias é a população que elege administradores públicos. Se das suas mãos sai ratificação de políticos corruptos, tudo está amalgamado, corpo único. Começa com convivência, depois vem a conivência até que se alcance corrupta-existência que infecta todo o tecido social. No Brasil se estabeleceu a cultura da corrupção. E o que é cultural não muda da noite para o dia.
Luiz Flávio Gomes
Jurista
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