Todo final de ano reviso minha agenda telefônica. Antes uma cadernetinha de endereços, hoje é em meu iPhone. Surpreendo-me sempre. Quantos nem me lembro quem são! Pessoas com as quais estive durante palestras, gente do operacional, o motorista de táxi que me pegaria no dia seguinte, pessoas que cruzaram minha vida e que jamais reverei. Apago. Aí tem um grupo que me deixa, como dizíamos em Bauru, encafifado: o nome, com sobrenome e tudo, não tenho ideia de quem seja. Bem. Não sei. Apago. Vem, então, a categoria que me abala, a dos que faleceram. Logo na letra “A” encontro tio Alcides, que faleceu dia 30 dezembro de 2013, depois da revisão da lista naquele ano. Apago ou não apago? Afinal, para que um número inútil, a não ser provocar lembranças de ente querido? Ma, eu tinha carinho pelo tio Alcides! Decido. O tio fica.
Passo pelo “B” sem problemas e no “C” encontro Chiquinho, um daqueles amigos-irmãos e que se foi já há 3 ou 4 anos, deixando um vazio impossível de preencher. Nunca tive coragem de apagar. O Chico fica. Passo pelo “D”,“E”,“F”,“G”,“H”,“I”,“J” e “K”, aliviado. No “L” encontro a prima Lila, filha do tio Alcides, que faleceu pouco depois do pai. Aí vem enxurrada de lembranças de infância. A Lila fica.
Sigo em frente, ressabiado. Passo pelo “M”,“N”,”O”,“P” e “Q” e fico feliz, tá todo mundo vivo. Chego ao “R” e lá está Rubem Alves, o mestre que se foi em 2014. Tive com ele poucos contatos pessoais, um bate papo em sua casa de Campinas, emails de quando em quando, mas seus livros sempre foram alimento para minha mente e alma. O Rubem fica.
Chego ao fim da lista sabendo que quatro contatos nunca atenderão a ligação nem responderão a mensagem. Até 2013 era só Chiquinho. 2014? Que ano!
Recosto-me para refletir e me lembro do filósofo Sêneca: “Feliz o homem capaz de ter por alguém tanto respeito que a simples lembrança do modelo basta para lhe dar ordem e harmonia espiritual.” Ordem e harmonia espiritual com um tantinho de saudade. Feliz 2015.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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