A etimologia tem belezas às quais nem todos atentam. Os escritores são uma exceção, vivem buscando a origem e o sentido das palavras, o que os leva a descobertas surpreendentes, não raro encantadoras. Parece que há uma disposição do cérebro em nomear seres e coisas de acordo com suas qualidades, característica formal que se perde ao longo do tempo em algumas línguas mas se mantém em outras. Muitas vezes a atribuição primeira fica esquecida, mas basta voltar no tempo e resgatá-la para entender a lógica humana. Por exemplo, abacaxi e ananás. O primeiro termo é usual em português; o segundo, na língua espanhola e entre outros europeus que a importaram. Tanto uma palavra quanto outra fazem parte do léxico tupi-guarani. “Abacaxi”, vocábulo que desmembrado teria o sentido de “fruto que cheira intensamente”, era de uso de algumas tribos; outras usavam “ananás”, que é sinônimo de “perfume de perfume”. Poeticamente a segunda opção me agrada mais.
Ambos os substantivos se referem à mesma planta tropical que Colombo descobriu logo que chegou ao conjunto de ilhas chamadas Antilhas, em 1492. Os nativos ofereceram aos navegadores a polpa do fruto como votos de boas-vindas. Era sinal de hospitalidade. Imagine-se o que isso representaria para o paladar dos que, singrando os mares, aportavam fartos de água salobra e sedentos por uma bebida fresca. Um pedaço de abacaxi, ou ananás, seria tudo de bom para dessalgar corpo e alma. Além de hidratante, doce e ácido na medida certa; e perfumado. Assim Colombo o descreveu em carta aos reis católicos Fernando e Isabel, que haviam financiado sua viagem em busca de novo caminho para as Índias: “ Tem a forma de uma pinha, mas é duas vezes maior; e seu gosto, excelente. Corta-se com a ajuda de uma faca ou canivete.” Colombo morreu pobre e esquecido em Valadolid, em 1506, contam os historiadores. É possível que tenha sabido da descoberta do Brasil e dos mesmos frutos que o haviam encantado nas Hispaniolas.
O fruto viajou o mundo, saudado como “rei das frutas”, um pouco pelo sabor inigualável, outro tanto por influência de um botânico francês, Dutertre, que assim o chamou em um livro por causa da coroa que o distingue. Os portugueses o levaram para as suas possessões indianas e para a ilha de Java, onde se ambientou bem. Fruta tropical, não tolera temperaturas abaixo de 10 graus e os ingleses fracassaram no cultivo. Mas fixaram outro nome pelo qual o fruto passou também a ser conhecido: pineapple, porque lhes parecia o fruto do pinheiro, a mesma impressão de Colombo.
Uma nota curiosa na história da origem do nosso abacaxi surge no século XVIII, durante as escavações arqueológicas que retiraram das cinzas e das lavas endurecidas do Vesúvio a cidade de Pompeia, soterrada desde o ano 79. Entre as muitas pinturas murais descobertas, uma chamou atenção por mostrar um fruto muito parecido ao abacaxi. Esta obra de arte, que enfeitava a parede de uma casa de Pompeia, foi cuidadosamente removida e se encontra hoje no Museu Arqueológico de Nápoles, a 22 km de distância. Suscita questionamentos. O fruto era então conhecido dos antigos romanos? Em caso positivo, quem o levou para o que seria chamado América do Sul? Ou seria a da parede apenas uma planta muito semelhante que desapareceu da Europa? São questões que intrigam.
Bonito e refrescante, o abacaxi só apresenta um ponto negativo: a dificuldade de descascá-lo. Tenho uma amiga que adora abacaxi, mas se nega a descascá-lo e paga o dobro comprando já pronto para consumo, lá em Ribeirão Preto, onde mora. Mas quem tem uma boa faca, de lâmina razoavelmente afiada, não vai achar que é problema “descascar um abacaxi”. Pelo menos a fruta... E com um abacaxi você pode fazer esta sobremesa bonita e perfumadíssima em apenas dez minutos. Eu a retirei do novo livro da Rita Lobo, Pitadas da Rita, que tem ótimas sugestões. Elas são especialmente práticas.
Faça assim. Descasque os abacaxis e corte em quatro rodelas. Disponha na travessa e polvilhe açúcar. Depois regue com Cointreau ou outro licor de laranja. Deixe descansando por cinco minutos e vire do outro lado. Aguarde mais cinco minutos. Reserve o caldo formado. Coloque numa frigideira de fundo grosso metade da manteiga e deixe aquecer. Ajeite as rodelas uma a uma. Se a frigideira for grande como a que usei, você pode colocar quatro de cada vez. Se for pequena, faça duas por vez. Deixe as rodelas fritarem por quatro minutos e vire. Conte mais quatro minutos. Elas devem ficar douradas. Retire para o prato de servir. Junte na frigideira o resto da manteiga e o líquido que ficou na travessa, mistura do caldo da fruta, açúcar e licor. Deixe levantar fervura e desligue. Regue com esta calda o abacaxi. Enfeite com folhas fresquíssimas de hortelã e as raspas de um limão. Sirva com sorvete de pistache, limão ou laranja.
Ingredientes
2 abacaxis
4 colheres de açúcar
4 colheres de manteiga
4 colheres de licor de laranja
Raspas de um limão
Folhas de hortelã
Sorvete para acompanhar
porção:8
dificuldade: fácil
preço: econômico
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