Os velhinhos


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Final de ano,época de reflexão, de calibrar expectativas. Cabe bem um texto antigo meu, escrito depois que assisti à cena terrível de empregada espancando anciã indefesa. Com a energia dos 20, 30, 40 anos, não entendemos como alguém pode ficar à mercê de agressão. Minha cabeça voltou 20 anos no tempo. Me vi olhando cartaz que anunciava “Buena Vista Social Club” ao vivo no Auditório Nacional, na cidade do México. O Buena Vista foi uma gafieira de Havana, Cuba, nos anos 50. Com Fidel, o clube acabou e os músicos se tornaram pedreiros, engraxates, vivendo de bicos.
 
No final dos anos 90, o músico norte-americano Ry Cooder descobriu o som deles e decidiu reunir os sobreviventes. A reunião e o som deles — vários com mais de 90 anos — é emocionante.
 
Fui assisti-los. É difícil explicar auditório para 10 mil pessoas. No palco simples um som inebriante, dançante, espetacular tomou conta do ambiente. Aos poucos, chegam os integrantes principais, com 70, 80, 90 anos de idade. O público delira. Lá pelas tantas, retiram-se. Permanece apenas Omara Portuondo, com seus 60 e poucos anos, e o pianista. Diz que tocariam Besame Mucho. Decepcionei-me. Já ouvi tantas vezes que, achava, não seria novidade. Omara cantava e o pianista detonava em mistura de bolero com jazz. Era inacreditável. Tive a nítida impressão que o pianista levitava. As 10 mil pessoas assistiam momento sublime de homem, mulher, piano, microfone, palco e público se transformando numa coisa só, preenchendo todos os cantos e elevando a alma.
 
Não tinha sangue e nem gente pelada. Só poesia e música de velhinhos, como aquela anciã que apanhava na TV. Os anciãos cubanos me deram prazer. A anciã brasileira, me deu pena e me fez refletir sobre minha velhice. O que estarei produzindo aos 80, 90 anos? Prazer? Dor? É essa reflexão que deixo para o tempo novo que vem por aí.
 
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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