O Brasil fecha 2014 como o País onde mais se mata por causa do futebol. De acordo com pesquisa permanente sobre violência no futebol, coordenada pelo professor e sociólogo Mauricio Murad, 18 mortes comprovadamente motivadas por rivalidades clubistas. O número só não foi maior — em 2013, morreram 30 pessoas por causa de confrontos entre torcidas — por causa da pausa de quase 30 dias nos campeonatos nacionais e regionais por causa da Copa do Mundo. É uma situação bastante preocupante, uma vez que o futebol, verdadeira paixão nacional, vem motivando confrontos violentos, alguns deles marcados através de postagens nas redes sociais.
A selvageria envolvendo um esporte que deveria ser sinônimo de congraçamento e lazer, tem afastado muitos torcedores que não compactuam e nem se sujeitam à violência que tem tomado conta dos estádios, chegando até a às rodovias que demandam às cidades onde acontecem jogos entre rivais. Emboscadas são armadas e, não raro, terminam em mortes ou ferimentos muito graves. Em 2014, o fato mais grave aconteceu no estádio do Arruda, em Recife, onde torcedores do Santa Cruz atiraram dois vasos sanitários de 15 quilos sobre rivais do Paraná Clube.
A pesquisa aponta que a falta de punição é tanta que 17% dos brigões são reincidentes. E segundo o Ministério do Esporte, apenas 3% dos processos de violência no âmbito esportivo acabam em condenação. Chegamos a um ponto onde não se pode mais admitir que esta violência atinha também quem se dispõe a deixar sua casa para torcer pelo time do coração. A impunidade estimula estes verdadeiros marginais travestidos de torcedores. Já está longe o tempo em que famílias inteiras faziam da partida de futebol do domingo uma diversão semanal. O mais assustador é que a maioria das chamadas torcidas organizadas recebem incentivos dos próprios clubes, conseguindo ingressos mais baratos e até ajuda de custo para o transporte para outras cidades.
O Ministério Público paulista vem tentando extirpar este verdadeiro câncer que está matando o futebol, com a queda vertiginosa do público nos estádios, o que impacta negativamente as contas dos clubes, que hoje precisam contar com o beneplácito do poder público para deixarem suas contas no azul. Enquanto não houver uma responsabilização efetiva daqueles que usam o anonimato das torcidas organizadas para praticarem o espancamento e o assassinato de semelhantes que não compartilham a mesma paixão clubista, a violência envolvendo o futebol só pode aumentar. A Justiça precisa ser mais rigorosa e rápida no sentido de identificar, indiciar, julgar e sentenciar estes assassinos que não merecem o epiteto de torcedores. Que neste novo ano que se inicia hoje o futebol brasileiro deixe de ser sinônimo de violência e que retome seus anos de glória, com estádios lotados, permitindo que os torcedores de verdade possam expressar a sua paixão pelo time do coração. Sem radicalismos, sem violência ou exacerbação. Só assim o nosso futebol poderá retomar a sua trajetória vitoriosa.
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