O Vestidinho Branco


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Existia uma velha senhora costureira chamada Beatriz. Ela tinha o dom de criar roupas lindas. Talvez fosse por causa do amor com o qual os costurava ou talvez fossem os anos de experiência. Quem sabe também alguma linha mágica. Nunca saberemos na verdade o motivo de tamanha beleza nas suas costuras. No entanto o fato é que ela era de uma capacidade inigualável em criar vestidinhos.
 
Foi um vestidinho branco o último que aquela senhora costurou. Depois, por causa da sua idade avançada, ela foi impedida por um tremor nas mãos de continuar seu lindo trabalho. Esse vestidinho foi parar em uma loja muito chique.
 
_ Que lugar é esse onde eu estou?  - Disse o vestidinho assim que saiu da caixa de roupas. Sua fala não foi mais alta que um simples pensamento e ninguém o ouviu.
 
Quase me esqueço, mas é que desse mundo de onde eu escrevo nos acostumamos a contar fantasias como se em algum momento elas deixassem de ser verdade. O vestidinho era encantado e talvez Beatriz fosse uma fada ou quem sabe uma bruxa. Não sei bem como ele veio parar nesse nosso mundo. 
 
Era véspera de ano novo e a vitrine estava iluminada, o vestidinho entendeu que estava exposto para ser levado para a casa junto de alguém muito especial e decidiu escolher sua dona.
 
Entrou na loja uma menina linda que era alta e encantava a todos com seus olhos azuis. Na hora o vestido ficou empolgado. Mas a tal menina resolveu dar uma birra daquelas bem no meio da loja. Ele não conseguiu sequer imaginar a possibilidade de passar seu ano colado com aquela menina chata. Ao entrar no provador o vestidinho prendeu a respiração e encolheu-se ao máximo que pode, ficando bem no meio das pernas na menina, deixando-a quase que com o bumbum de fora. A birrenta teve que achar outra roupa para comprar.
 
Grudou os olhos na vitrine da loja uma garotinha muito simpática que tinha na boca um enorme chocolate. Na hora ela desejou o vestido e o vestido teve lá suas dúvidas. Porém a menina parecia bem legal. Puxou a mãe para dentro da loja e estendeu suas mãozinhas melecadas de doce em direção ao vestido. Ele se jogou do cabide ainda mais pálido do que já era e depois deixou o vento levá-lo para debaixo de um armário gigantesco. A garota que era impaciente acabou optando por um shortinho jeans e uma blusinha azul. Saiu da loja cantarolando e comendo pirulitos e pipoquinhas que ganhou da vendedora.
 
Depois de dar enorme trabalho, o vestido, já descrente da vida, foi exposto novamente na vitrine. E quando menos esperava percebeu que estava sendo observado por olhos apertadinhos de uma criança que o olhava timidamente.
 
_Mamãe, eu posso provar este vestidinho lindo?
 
O vestido estufou o seu corpete, brilhou de contentamento. Aquela era a pessoa a quem tanto esperava. Com quem queria passar o seu dia de ano novo e desejar aquelas coisas boas que todos desejam nesta época. Com sorte ainda iria junto da menina em várias festas. Estranhou a demora da garota em entrar na loja. Não compreendia a agitação das pessoas e estava cada vez mais ansioso e apreensivo. Até que viu a menininha rodar em sua direção empurrada pela mãe em uma cadeira de rodas. Era a menina do sorriso mais lindo que o vestido já tinha encontrado na sua vida.
 
A garotinha pegou o vestidinho e o apertou delicadamente nas mãos, o vestido apertou-se nas mãos da menina em um gesto intencional de lhe fazer um carinho. Ela era uma garota cheirosa, sem dúvida a pessoa mais especial e perfeita deste mundo.
 
Ao entrar no provador de roupas, tanto o vestido quanto a menina serviram-se perfeitamente um para o outro, o vestido ficou um pouco rosado de tanta satisfação e em seguida foi vendido, colocado em uma sacola e depois pendurado em um guarda-roupa cor de rosa.  Por volta da meia-noite viu alegremente os fogos de ano novo abraçado na menina que ele escolheu para lhe dar sorte e paz por um ano inteiro.
 
Por: Milla Souza

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