A exposição que o projeto do pesquisador Márcio Luís Andrade e Silva e sua equipe vêm obtendo na mídia está ajudando na propaganda indireta do seu medicamento para disfunção erétil, prontamente apelidado de “Viagra Caipira”.
O farmacêutico Márcio Luís, 49, pós-doutor em Química e professor da Unifran (Universidade de Franca), lidera um núcleo de pesquisas que se vê às voltas não apenas com esse projeto, mas com vários outros, como o que isola moléculas do orégano para aplicação em pacientes diabéticos.
A patente do medicamento, depositada cinco anos atrás nos Estados Unidos, foi aprovada recentemente, abrindo campo para o mesmo processo na Europa e no Japão. O reconhecimento dos estudos envolvendo a cubebina, substância encontrada na piper cubeba e na pimenta de Java, usada na Índia, é um passo importante, mas a dificuldade em encontrar um laboratório capaz de apostar no produto e investir perto de R$ 10 milhões nas fases de testes pré-clínicos e clínicos é o maior desafio atualmente.
De acordo com o pesquisador, os estudos revelaram que a molécula tem um efeito 50% mais potente que os medicamentos tradicionais como o Viagra. Esse resultado se deve à ação da substância que inibe a enzima chamada fosfodiesterase tipo 5 (PDE5), que é responsável por interromper a ereção.
Para Márcio, que coordena uma equipe de quatro pesquisadores, sem contar outros colaboradores, o trabalho é resultado de esforços de 20 anos e serve para desmistificar a ideia de que apenas universidades públicas são capazes de realizar pesquisas e projetos de qualidade.
Com expectativa de começar a fase final de testes em 2015, o nome do produto dependerá dos planos de marketing da indústria. Para o professor, no entanto, já existem sugestões. “Há um concorrente que se chama Eleva. Os amigos sugerem que o nosso se chame ‘Arriba’ ou ‘Levanta’”, brincou.
Há quanto tempo o senhor está envolvido com esse medicamento contra disfunção erétil?
Ele já vem de longa data. Nós o desenvolvemos há muito tempo. Entrei na universidade em 1994, quando começaram as pesquisas aqui. Em 2000 tive um projeto aprovado pela Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - e dele resultou o que estamos fazendo hoje. Envolvia o isolamento de moléculas da pimenta e sua modificação estrutural. Nesse estudo conseguimos vários resultados, com Doença de Chagas, Esquistossomose, atividade bacteriana, anti-inflamatória e, em 2004, saiu esse efeito, da disfunção erétil, uma aluna notou que o rato do experimento estava tendo uma ereção, anos depois focamos estudos nessa parte. Temos várias possibilidades de desenvolver novos medicamentos.
Os estudos sobre os efeitos na disfunção erétil progrediram, mas e os demais?
Os outros não evoluíram muito por causa da indústria, que não investiu. Estamos com um projeto sobre a molécula da Doença de Chagas parado. Mandamos para a Finep - Financiadora de Estudos e Pesquisas, órgão ligado ao Governo Federal - para aprovação de financiamento, mas não tivemos qualquer resposta. Não foi aprovado e não são dadas justificativas.
Como foi o processo para registro da patente?
Em 2009 depositamos a patente e agora, recentemente, ela saiu nos Estados Unidos. Estamos esperando o mesmo na Europa, no Japão e no Brasil também. Como são centros diferentes, a obtenção não é simultânea. Logicamente que saindo nos Estados Unidos acaba saindo nos outros países. No Brasil demora mais devido à quantidade de pedidos que existem e o contingente de pessoas que vêm trabalhando em cima disso.
O processo de registro de patente nesses países é feito no Brasil?
Sim, no Brasil. Depositamos a patente em um órgão internacional, em que você escolhe os países e vai confirmando as fases. Fizemos isso em 2009 e 18 meses depois confirmamos nosso interesse. Quando sair na Europa, teremos que escolher os países que vamos proteger, o que geralmente ocorre na Inglaterra, Alemanha, Áustria, Bélgica, França, que são os centros de pesquisa mais fortes.
Esse processo costuma ser dispendioso...
Nos Estados Unidos existem algumas taxas durante o processo. Depois que se obtém a patente tem a taxa de concessão. Na Europa, a cada país escolhido há um pagamento diferente. Quem paga é a universidade, que é a titular da patente. Depois, o laboratório que licenciar a patente acaba arcando com esses custos.
Qual o prazo que a pesquisa fica sob a proteção da patente?
Durante 20 anos depois que se deposita, o direito é exclusivo.
Do ponto de vista financeiro, é possível dizer que o produto já poderia estar no mercado?
Sim, já poderia. Nós tivemos quatro anos em que tentamos parceria com o laboratório Cristália, que nos enrolou possivelmente porque já tem o Eleva, que é semelhante. Não tem sentido o tempo que eles nos deixaram sem resposta. No começo do ano, quando exigi uma definição, eles nos mandaram uma carta dizendo que não tinham mais interesse.
Hoje o medicamento não depende de mais nenhum teste? Está pronto para ser comercializado?
Ainda não. Nesta fase, ele ainda depende dos estudos clínicos e pré-clínicos que só a indústria tem condição de promover. Existe um limite para a universidade. No Brasil o empresário não entende isso. Infelizmente querem a coisa pronta e não é assim que funciona em lugar algum do mundo. A universidade gera o conhecimento, mas depois disso tem que ter um laboratório junto.
Mas qual seria o papel da indústria nessa fase do projeto?
A indústria vai dar as condições para os ensaios clínicos e pré-clínicos já com a formulação farmacêutica que a universidade não pode fazer. Esses testes já foram feitos todos, mas não em laboratório credenciado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
Como o medicamento que vocês patentearam chegaria ao mercado hoje?
Para chegar ao mercado ele precisa passar pelos testes que falei. Estamos iniciando uma parceria com uma grande indústria, que ainda não posso falar o nome, e que vai registrar a patente para colocar o medicamento no mercado em três anos.
Os exames clínicos são os testes feitos em seres humanos propriamente. De quanto seria o investimento nessa etapa?
Em cães e humanos. Entre exames clínicos e pré-clínicos seriam necessários uns R$ 10 milhões mais ou menos.
Mas tendo uma empresa que banque esse investimento, a universidade não ficaria presa a ela como condição para deter o direito de comercialização?
Isso não aconteceria. Existe um contrato de confidencialidade, mas acima de tudo é um serviço de terceiro.
Por que o registro da patente é tão importante no desenvolvimento de um projeto como o seu e de sua equipe?
É importante porque você protege a pesquisa, o invento. Com isso ninguém mais pode mexer naquilo. Toda vez que alguém quiser mexer, interferir, terá que te pagar. São os royalties que a indústria, caso queira, deve pagar aos pesquisadores.
Por analogia, pode acontecer lá fora o mesmo que ocorreu no Brasil quando se quebrou a patente dos medicamentos para Aids?
Se a patente é quebrada, alguém tem que pagar. Não se quebra uma patente sem custo e acredito que o Governo pagou por isso. Isso é lei. Nos Estados Unidos estou protegido pela lei americana. Isso só se faz no Brasil, porque não existe nada parecido lá fora. O registro da patente é a nossa proteção.
Qual a expectativa em torno de um medicamento que já tem concorrentes no mercado?
Existem no mercado vários remédios que cumprem essa função. Mas o nosso, e posso falar porque estamos pesquisando há muito tempo, tem tudo para ser melhor. Principalmente por ser natural e não atuar da mesma forma que os outros que estão aí atuam. Nos concorrentes há uma grande quantidade de moléculas de nitrogênio, o que o nosso não tem. Esse nitrogênio, quando metabolizado, transforma-se em nitratos, sendo prejudicial a pacientes cardíacos, por exemplo. Há também o aumento da frequência cardíaca associada ao consumo desses medicamentos que estão sendo vendidos. O nosso está isento dessa soma de efeitos. Possivelmente um cardíaco poderá usar tranquilamente. São pontos positivos para nós e existe mercado para ele.
Caso o senhor consiga fechar contrato com um grande laboratório, que resultados são esperados para esse produto?
A partir do momento em que conseguirmos colocar o medicamento no mercado, a expectativa é muito positiva, tanto para a indústria, quanto para a universidade, os pesquisadores e para as pessoas que usarem.
É um medicamento exclusivamente masculino?
A princípio, sim. Mas existem possibilidades de realizarmos estudos para que ele seja usado pelo público feminino também. Além disso, existem estudos para a sua aplicação no controle da pressão arterial intrapulmonar.
Caso consiga plenamente seu objetivo, quais seriam os dividendos que um projeto de pesquisa como esse pode trazer para seus pesquisadores?
Com a indústria investindo e vendendo virão os royalties, o retorno financeiro. Não só, mas a repercussão que está tendo nos dá mais visibilidade. Para a universidade é muito importante porque mostra que mesmo uma instituição privada tem todas as condições de realizar projetos de pesquisa de excelência. Nós não estamos numa USP, Unicamp ou Unesp, mas há duas décadas produzimos pesquisa de qualidade aqui.
O senhor citou essas instituições e a pergunta é se existe diferença para o que se produz de conhecimento entre elas e uma faculdade privada?
Existem alguns anteparos, preconceito. Mas o que nós fazemos hoje, o investimento que se faz em pesquisa, na qualidade do ensino, permite que muita coisa interessante seja criada. Não são apenas as universidades públicas que podem produzir ciência com qualidade, pesquisas de ponta. O nosso programa de pós-graduação em ciências está gerando muito conhecimento e não fica devendo nada. Obtivemos nota 5 na Capes, nota de excelência nacional.
Além do medicamento para disfunção erétil, qual outro projeto em andamento?
Temos vários projetos sendo feitos. Tem um que envolve estudos do óleo de copaíba, na atividade antiparasitária e antimicrobiana e de combate à acne usando a molécula isolada da mesma planta. Temos um trabalho com orégano, voltado para a sua característica anti-hipoglicemiante (aplicada em tratamento contra o diabetes). Dentro da área da saúde são projetos interessantes.
Como o senhor imagina que seu invento será chamado no mercado?
O nome Viagra Caipira é o mais comum. Já existe o Eleva e com isso os amigos estão sugerindo que o nosso se chame ‘Arriba’, quem sabe ‘Levanta’ (risos).
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