Um país cheio de contradições, onde a violência social predomina e as forças antagônicas se enfrentam brutalmente. Um romance que joga luz crua sobre esse cenário. E um autor que, segundo o escritor Alberto Mussa, “se insere na velha e longa linhagem de intelectuais e artistas franceses que ousam enfrentar o enigma brasileiro”. Assim é definido O Ouro de Quipapá, do francês Hubert Tézenas, lançado originalmente na França pela Les Éditions L’Ecailler, com o título de L’or de Quipapá, e que chega agora ao Brasil na tradução de Fernando Scheibe, pela Editora Vestígio, especializada em romances policiais.
A obra inaugura uma nova linha editorial da casa, em que a qualidade da narrativa se evidencia à medida que a trama é tecida diante do leitor. O crime é apenas um dos temas deste romance excepcional, que vai muito além do policial, configurando-se como uma crítica social implacável a uma sociedade na qual a verdade tem pouco espaço, e a honestidade, valor meramente opcional, não resiste aos poderosos.
No romance, um homem comum, corretor de imóveis, é testemunha de um crime no escaldante e abafado outono nordestino de Recife, em 1987. Alberico Cruz, antes principal suspeito, torna-se o culpado ideal. Acusado de assassinar Teotônio de Jesus Policarpo, um sindicalista, o anti-herói se vê brutalmente lançado no inferno da prisão. Sua luta pela sobrevivência o introduz em um mundo de violência do qual nada conhece: o mundo dos senhores da cana-de-açúcar, às portas do sertão pernambucano.
É nesse mundo que outro enredo se desenrola. Kelbian, filho do dono de uma das maiores destilarias do Nordeste, da família Carvalho, tem um meio-irmão chamado Tiago. Em uma conversa, este fala sobre a velha mina do Alemão, que se encontra em suas terras. Kelbian então traz um geólogo de São Paulo para analisar o terreno. As conclusões são categóricas: ouro tem, só precisa cavar. Para que nada fosse descoberto e tudo acontecesse da maneira mais rápida possível, os irmãos mantêm os empregados em regime de trabalho escravo, sem nenhuma liberdade. Tudo começa a vir à tona com as investigações sobre a morte do sindicalista, revelando um universo infausto, gangrenado pela corrupção.
Tézenas utiliza o assassinato do líder sindical, ou seja, o mote do romance policial, como meio de descrever a incrível dureza da vida dos cortadores de cana pernambucanos da época, por meio de uma escrita sóbria e forte. “A situação me parecia muito sombria: um país fechado, um sistema latifundiário completamente arcaico e bloqueado, os militares ainda nos bastidores do poder”, relata. À parte a ditadura, toda a narrativa leva a reflexões que são ainda muito pertinentes à realidade brasileira, principalmente ao nordeste, infelizmente. A exploração do trabalho, a ignorância dos eleitores, o voto de cabresto ( hoje substituído por outro nome), a influência dos poderosos, o peso da corrupção, a ausência de punição num meio degenerado, a precariedade percebida por todo lado- são apenas alguns elementos no rol dos muitos que o olhar estrangeiro apreende com sagacidade.
“O leitor acompanhará o livro com grande paixão pela qualidade das palavras, pelo envolvimento da história, pelos personagens tão bem construídos quanto vivos e atuantes. Isto mesmo, quem estiver lendo esse romance se sentirá atraído por um grande sonho, vivendo todas as circunstâncias e situações”, observa o escritor Raimundo Carrero. Segundo ele, ‘Hubert Tézenas não é apenas um autor de romance policial. É, sobretudo, um grande autor, com tratamento artístico do texto e dos personagens’.
Para Edney Silvestre, “com seu conhecimento e afeto pelo ‘Brasil profundo’, o tradutor de meus livros para o francês mostra ser, ele mesmo, um escritor com recursos maduros, aqui amparados em uma trama engenhosa e surpreendente”. Alberto Mussa completa: “Garanto que o leitor se sentirá em casa”.
Sobre o estilo, Tézenas surpreende pela agilidade, clareza e objetividade da escrita. Com capítulos concisos, alternando pontos de vista, mantém ritmo frenético do começo ao fim, não deixando que o suspense se desvaneça. Uma singularidade autoral é a recusa à marcação do diálogo, inserido no meio da narração ou da dissertação sem aspas, sem travessões, o que num primeiro momento pode causar estranhamento, mas nada que perturbe o entendimento. Antes da décima página o leitor já estará acostumado. O nível de envolvimento suscitado pela saga é maior que tudo e a leitura flui normal e prazerosamente.
Para quem gosta do gênero, é livro ideal para ler neste finalzinho de ano, quando as horas parecem pairar indolentes à espera do novo ano que está pra chegar.
Entre uma e outra pancada de chuva o mergulho num dos nossos muitos Brasis pode ser elucidativo.
Romancista policial
Hubert Tézenas nasceu em Paris, em 1962. Após caóticos estudos (três anos na École Normale Supérieure e três meses na Sciences Politiques, em Paris), largou tudo abruptamente e se mudou sozinho para o Brasil, em 1985, apaixonando-se pelo país. Tentou dois ou três empregos em diversas regiões, tornou-se tradutor de romances sentimentais para financiar suas viagens e foi gradualmente se especializando em literatura noir.
Sobre sua vinda para o Brasil, onde permaneceu durante dez anos, diz que “não buscava nada em particular, a não ser esquecer uma decepção amorosa, ter uma vida mais aventureira e encontrar pessoas diferentes”. Em entrevista ao Jornal do Comércio, revelou que foi quase por acaso que acabou morando em Pernambuco. E completou: “Esses anos para mim foram uma experiência decisiva, inesquecível. Em termos de bondade, paixão, mentira e violência, tenho a impressão de saber agora do que o ser humano é realmente capaz”.
De volta à França, tornou-se tradutor de Robert Crais, Mo Hayder, Ed McBain, Elizabeth George, Tess Gerritsen, Erik Larson. Atualmente trabalha na tradução de Driven, de James Sallis. Sem deixar de lado seu amor pelo Brasil, traduziu recentemente para o francês dois de seus mais importantes autores contemporâneos, Alberto Mussa e Edney Silvestre.
A primeira versão de O Ouro de Quipapá foi escrita em apenas três semanas, em 1991, entre Recife e Palmares. “Mas perdi o manuscrito, me dediquei à tradução e só reencontrei o texto 17 anos depois, em 2008. Vi logo os defeitos e refiz tudo”, comenta o escritor. Após 12 anos longe do Brasil, Tézenas retornou no último novembro para lançar o livro em Ouro Preto, Rio de Janeiro e Porto Alegre. (SM)
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