Morreu Jubileu do Amendoim, personagem da história da cidade


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Calou-se, na véspera do Natal, a voz de Jubileu do Amendoin, das mais tradicionais e conhecidas de Franca e região. Seu jargão ‘amendoim torradinho e salgadinho’ ecoou por quase 30 anos nos principais eventos regionais e marcou gerações. Devem ser bem poucos os que nunca a ouviram. Jubileu Ferreira dos Santos morreu às 22h30 horas do dia 24 de dezembro na Unidade de Terapia de Intensiva da Santa Casa de Franca, após internação de urgência no dia 19. Há dois anos sofreu AVC (Acidente Vascular Cerebral) que o deixou com problemas na voz e locomoção. Segundo a família, desde então vinha sofrendo transtornos mentais. No entanto, continuou trabalhando.

Este ano, sofrendo com problemas circulatórios nas pernas, sofreu queda e teve a saúde ainda mais complicada. Não foi mais o mesmo. Restrito à cama e alimentado por sonda, foi internado na Santa Casa de Franca no dia 19 de dezembro. Foi necessária a amputação de uma de suas pernas. A idade — 77 anos — pesou: o atestado de óbito registrou parada cardiorrespiratória causada por trombose.

Era natural de Capetinga (MG). Ainda muito jovem mudou-se com a família para Franca em busca de melhores oportunidades. Não foi além do segundo ano primário: tinha que trabalhar para ajudar em casa. Sua mãe, doceira, produzia ‘balas-puxa’, e Jubileu vendia andando pela cidade. Tino comercial, percebeu logo que as balas não ajudariam a família como era necessário. Decidiu, então, torrar e comercializar amendoim, e o fez já demonstrando crescente dom para o marketing: com base nas alegadas propriedades afrodisíacas do amendoim construiu a escalada de suas primeiras vendas na zona do meretrício francana. Deixou isso claro quando este Comércio o entrevistou em 2007: ‘passei a vender nas casas de prostituição. Agradeço às prostitutas que me ajudaram.’

A construção de seu negócio teve mais lances mercadológicos. Baseou-se na ansiedade que toma conta das pessoas durante competições esportivas para ‘vender o amendoim em estádios e ginásios esportivos, e deu certo’, disse seu filho, Carlos. Aproximou-se de radialistas que narravam competições e, a eles, lançava pacotinhos do ‘amendoim salgadinho e torradinho’. No agradecimento ao vivo que lhe faziam, tinha ampliada a propaganda de seu produto. Teve outros insights que estimularam pessoas a comprar-lhe o produto. Em certa época, um sabonete lançou campanha inserindo chave de carro nas barras comercializadas. Jubileu não se deu por rogado. Usou o assunto ‘da hora’ para gritar sua novidade: ‘amendoim torradinho salgadinho, agora dando volks!!! Ache a chave!!!’. As pessoas se divertiam e continuavam comprando.

O ‘oooiiii’ muito esticado que adotou há anos, e que hoje ainda é a forma dos vendedores de seu amendoim chamarem a atenção dos compradores, a família diz que o fez para ‘pedir’, ou ‘forçar’ passagem quando os estádios e ginásios estavam lotados. O ‘grito’ tornou-se folclore das competições esportivas francanas. Pode ser ouvido em transmissões de futebol da Francana ou do basquete em Franca repetido em coro por grande número de torcedores quando estimulado por seus vendedores, especialmente Adalto da Silva, que elevou o ‘Oi’ quase a um ‘estopim para incendiar a torcida’. O negócio prosperou e levou Jubileu a empregar 15 funcionários. Havia menores que queriam trabalhar e ele lhes dava emprego, ‘mas a lei proibiu o trabalho para eles, e tivemos que dispensá-los”, disse ao Comércio em 2007.

Jubileu deixou Aparecida Gadine dos Santos viúva, depois de 52 anos de enlace. Tiveram cinco filhos (Rosângela, casada com José de Souza; Carlos Henrique, casado com Rosa; Cláudia, casada com Augusto Alves Barbosa; Paulo César casado com Cilene; Elaine, casada com Rafael do Couto Rosa Vilela Neves), cinco netos (Kênia, Guilherme e Gabriela, Lidiane, Rafaela) e dois bisnetos, Heitor e Júlia. Apenas Aparecida e Carlos Ferreira dos Santos trabalhavam na produção e comercialização do amendoim — os outros filhos dedicam-se a atividades artísticas, salão de beleza, organização de festas e pesponto. Quando foi entrevistado pelo Comércio em 2007, Jubileu vaticinou, desejando que Carlos preservasse sua lembrança: “Está trabalhando no meu lugar. Estou deixando espaço para ele porque vou morrer mesmo. Ele é o segundo Jubileu’. Sua microempresa fornece os tradicionais saquinhos do amendoim salgadinho torradinho para quase mil bares da cidade e região, além de continuar atuando fortemente em competições esportivas e eventos.

Jubileu também se orgulhava de estudos que realizava sobre relógios solares. Produziu, inspirado no Relógio do Sol construído por frei Germano de Annecy na praça Nossa Senhora da Conceição, do Centro de Franca, várias peças com o mesmo conceito e as instalou em indústrias, residências particulares e edifícios de prefeituras da região; um, na área de eventos do Poliespor-tivo no tempo em que a Francal mantinha lá sua sede. O velório de Jubileu do Amendoin aconteceu no Vicente de Paula, segindo-se sepultamento às 16 horas do dia de Natal, no Cemitério da Saudade.  

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