O Natal torna as pessoas mais abertas à reflexão, algo difícil nestes tempos de consumismo selvagem que se utiliza do espírito natalino para induzir à compra de presentes e artigos de festas. A corrida por presentes faz deste, um tempo de ansiedade tanto para quem tem com quem se reunir como para quem não tem. Os primeiros enlouquecem na produção de festa que, ano a ano, tem de ser maior. Sobram, assim, meses de sequelas financeiras. Já quem não têm família ou amigos com quem se encontrar corre risco de depressão.
Tudo porque o verdadeiro espírito natalino se perdeu. Pouca gente lembra que Natal é festa muito antiga, anterior ao próprio cristianismo que foi incorporando ritos de outras culturas durante o processo de expansão dos primeiros séculos da era cristã.
Em muitas culturas, Natal era a festa que marcava o solstício de dezembro; no hemisfério norte, o início do inverno. Comemorava as colheitas, havia preparação para o período de estivo e recolhimento que marca o inverno nos climas frios. Também, tempo de agradecimento e comunhão com a natureza tão generosa no provimento das necessidades materiais e espirituais do ser humano. Na etimologia da palavra natal, encontramos a mesma raiz da palavra natureza. Vêm do termo latino natus, que significa tempo de nascer.
A idéia encaixa no contexto do nascimento de Jesus. Para os cristãos, marca o início de nova era de amor e graça ainda mais quando menciona o nascimento de menino pobre, ocorrido em Belém — cidade cujo nome significa celeiro, alusão a tempo de renascimento e abundância da condição humana, pregado por Cristo. Encarando o Natal neste espírito, veremos que não razão para loucura. Bastaria uma atitude de recolhimento e reflexão, de preferência junto à natureza, para avaliar ações do ano que finda e projetar atitudes de um novo tempo.
Arno Kaizer
Agrônomo, ecologista e escritor.
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