Cadê o Natal como celebração do nascimento de Jesus? Cadê o presépio na sala, crianças catequizadas pelo significado da festa? Cadê a Missa do Galo, que inspirou um belo conto de Machado de Assis?
Considero que a pós-modernidade trocou o emblemático pelo mercantil, pela compulsão consumista. Eís o sistema a banalizar a mais bela festa cristã. Vamos escorraçando o filho de Deus do espaço religioso e introduzindo cambistas que comercializam o Papai Noel.
O velho barbudo pode ser encantador às crianças devido à massificação que as induz a preferir Coca-Cola a leite. Haverá mais mistério no ancião que desce pela chaminé ou na criança, própria presença de Deus entre nós?
Papai Noel nada tem a ver com nossa realidade. Somos país tropical, jamais andamos de trenó e em nossos zoológicos há renas. Mas, como livrar a cabeça do capacete publicitário? O grupo de oração de São Paulo, do qual participo, decidiu confraternizar com presentes zero. Queremos presenças na celebração. O grupo de Belo Horizonte instituiu o ‘amigo culto’ (e não oculto): sorteada a pessoa, ela recita uma poesia, entoa um canto, narra uma fábula ou conta um ‘causo’ que faça bem à alma.
Meus amigos Cláudia e Jorge decidiram que, neste ano, nada de shopping! Levarão as crianças ao hospital pediátrico, para que brinquem com os pequenos enfermos. Isto, sim, é encontrar Jesus, como reza o Evangelho da festa de Cristo-Rei: ‘Estive enfermo e me visitaste’ (Mateus 25, 36).
Isso é muito mais do que cultuar Jesus no presépio, em imagem de gesso. É encontrá-lo vivo naqueles com os quais ele se identificou. Mas há quem prefira entupir as crianças de Papai Noel, ‘educá-las’ centradas no shopping, incentivá-las a escrever cartinhas com requintados pedidos. Tomara que, mais tarde, não se queixem dos adolescentes consumistas, escravos monoglotas dos celulares, indiferentes ao sofrimento alheio e desprovidos de espiritualidade.
Frei Betto
Escritor, assessor de movimentos sociais
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