'O que vem ocorrendo é uma banalização da Aids’


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O HIV não inspira mais tanto terror, mas coordenadora do programa DST/Aids reforça a importância de se cuidar: “A Aids não mata mais como no início da epidemia, mas não deixou de ser uma doença crônica, sem cura”
O HIV não inspira mais tanto terror, mas coordenadora do programa DST/Aids reforça a importância de se cuidar: “A Aids não mata mais como no início da epidemia, mas não deixou de ser uma doença crônica, sem cura”
O primeiro caso de Aids, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, surgiu em 1980. A doença marcou uma geração que viu famosos e anônimos morrerem em consequência da doença. Mas atualmente o cenário é outro. Apenas cerca de 7% dos portadores de HIV morrem, número bem abaixo do registrado em 1996, época em que o índice de mortalidade dos aidéticos chegava a 22%.
 
Mas a queda da taxa de mortalidade pode causar uma errônea banalização da Aids. Apenas no primeiro semestre de 2014, 65 novos casos foram registrados em Franca e região pelo Programa Municipal DST/Aids. Segundo dados do Programa, 60% dos diagnósticos são de pessoas heterossexuais, 50% tem dos diagnosticados têm idade entre 21 a 35 anos, e o número de homens portadores do HIV é o dobro do total de casos registrados entre as mulheres. 
 
O mês de dezembro é marcado pelo combate à doença e no primeiro dia do mês é celebrado Dia Mundial da Luta Contra a Aids. A reportagem do Comércio conversou com Carla Cristina Del Valle, coordenadora do Programa Municipal DST/Aids, que falou sobre a situação da doença em Franca.
 
Como é a situação da Aids em Franca atualmente?
Franca está dentro do mesmo cenário do Estado de São Paulo. Atualmente a taxa é de 2 portadores do vírus para cada mil habitantes na cidade e essa é considerada uma média baixa. A Aids hoje chegou em um ponto de estabilização no número de casos novos. Não que não tenha casos novos, mas o número de novos diagnósticos se mantém praticamente o mesmo a cada ano, sem registrar grandes alterações de um ano para o outro. Então a quantidade de pacientes que atendemos só aumenta, pois o número de mortes diminuiu muito. Até 1996 era uma taxa de 22% de pacientes que morriam e esse número diminuiu para 7% hoje, por isso que a quantidade de gente vivendo com o vírus HIV ou com a Aids está só aumentando.
 
O que colaborou para a diminuição das mortes?
Em 1996 foi introduzida no Brasil uma quantidade maior de medicamentos e os pacientes passaram a ter mais opções. Por exemplo, se um paciente não se adapta a um medicamento, ele tem outro para substituir e, assim, manter seu tratamento. Isso fez com que a taxa de mortalidade caísse. Essa foi a grande mudança. Mas tem também a questão da ampliação do atendimento e da melhoria dos laboratórios para agilizar os diagnósticos. Quem more hoje - num quadro de Aids -, é quem não faz o tratamento adequado e acaba adquirindo uma outra doença que chamamos de doença oportunista, pois a resistência do paciente aidético fica muito baixa quando não trata e ele acaba morrendo de pneumonia, de tuberculose, de toxoplasmose, mas não especificamente de Aids.
 
Atualmente pouco se comenta sobre Aids em comparação ao início dos anos 90. Por que você acha que isso acontece? Por que o assunto saiu dos noticiários e, aparentemente, da preocupação mais presente das pessoas?
Houve uma banalização do HIV, pois a doença não mata mais como matava no início da epidemia. Mas a Aids não deixou de ser uma doença crônica, sem cura, que necessita de tratamento. Quem tem Aids tem que tomar a medicação para o resto da vida e, assim como outros remédios, os medicamentos para Aids têm uma série de efeitos colaterais. Existe a banalização por conta da melhora do tratamento, mas essa banalização não é correta, pois leva a uma falsa sensação de que a doença não vai ter consequências. Acontece muito também o mau julgamento do aidético. Quando a pessoa recebe um diagnóstico de câncer a sociedade tem pena, quer ajudar e acolher, mas diante de um diagnóstico de Aids, a população julga que alguma coisa de errada a pessoa fez. Por exemplo, uma mulher casada há 20 anos que tem relação só com o marido e pega HIV, o que ela fez de errado? Se é câncer vamos auxiliar, mas se é Aids, vamos nos afastar, e não deveria ser assim.
 
Como o programa municipal de DST/ Aids trabalha em Franca atualmente?
A partir do momento que o paciente percebe os sintomas, ele procura o exame, mas o objetivo do nosso trabalho é incentivar as pessoas a fazerem o exame enquanto ainda não tem sintomas. Se a Aids é descoberta antes, o próprio tratamento fica mais fácil. A partir do momento que a pessoa descobre que tem o vírus HIV ela já pode começar o tratamento. Se ela não tem sintomas, ela vai fazer acompanhamento com exames a cada 3 meses para avaliar como estão as defesas do organismo e a quantidade de vírus que possui. Se ela já tem sintomas, ela vai começar a fazer o tratamento dos sintomas e, também, o do próprio HIV, com medicação. 
 
Em que local as pessoas podem fazer o teste?
As pessoas que querem fazer o teste hoje devem procurar o CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento) que fica com a parte da prevenção e do diagnóstico. Já o SAE (Serviço Assistência Especializada) lida direto com o tratamento. Estamos tentando expandir o teste para que possa ser feito nas UBS também. Hoje o exame só é feito na Unidade do Aeroporto 3. Também fazemos o serviço dentro de escolas, em trabalho de campo como nos terminais de ônibus e praças, com a população mais vulnerável como das boates gays, casas de prostituição e com travestis e transexuais.
 
Como a doença age e se manifesta?
No início, o HIV não tem sintomas. A pessoa pode chegar a ter uma gripe leve na fase inicial, mas trata como gripe e melhora, e o HIV passa despercebido. Nessa fase falamos que essa pessoa tem o vírus HIV, mas não tem Aids. Em média, demora de 5 a 8 anos para a manifestação dos sintomas. Mas é importante as pessoas saberem que não é porque ela não tem os sintomas que ela não transmite o HIV. A partir do momento que ela adquire o vírus, ela já é um possível transmissor. Já com a Aids efetivamente instalada, digamos assim, os sintomas são a perda significativa de peso, a pessoa chega a perder 10 quilos em um mês, febre persistente, aumento de suor principalmente à noite e maior recorrência das doenças oportunistas. 
 
Como a Aids age no organismo?
O vírus da Aids ataca os linfócitos que são os responsáveis pela nossa defesa. Quanto mais o tempo passa, menos defesa o doente tem e mais frágil vai ficando o organismo. Temos que nos atentar para essa separação do HIV e da Aids, por isso vou reforcá-la. HIV é quando a pessoa tem o vírus e pode transmiti-lo, mas ela não tem sintomas relacionados a presença desse vírus. A partir do momento que aparece os sintomas, no momento em que o organismo já está debilitado, é que dizemos que a pessoa tem Aids. O vírus se aloja dentro das células de defesa e a medicação não consegue chegar lá. Os medicamentos vão diminuir a quantidade de vírus no corpo, a carga viral, e consequentemente aumentar a defesa do corpo, e isso vai melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A quantidade de remédios que cada paciente vai usar no tratamento vai depender muito do caso, mas é cerca de dois ou três. Isso também mudou. Não é mais como no início da descoberta da doença, quando se tomava um coquetel de remédios.
 
Como é a rotina de uma pessoa que tem Aids?
Ela tem uma doença crônica, tem que tomar medicação, mas ela consegue ter uma vida normal, sem nenhuma restrição alimentar ou coisas do tipo. Se ela seguir o tratamento direitinho, ela vai levar uma vida normal, vai morrer idoso. A gente que lida com a Aids vê claramente a evolução das pessoas que tratam e das pessoas que não tratam. O primeiro caso de Aids surgiu em meados de 1980 e hoje ainda lidamos com pacientes que chegam aqui e falam que não vão tratar e esses são os que geralmente morrem antes. 
 
Que tipo de paciente, ou que circunstâncias levam um paciente a se recusar ao tratamento?
Quem não trata, normalmente faz isso por revolta, ou por falta de estrutura familiar, de apoio. Geralmente são moradores de rua, usuário de drogas, quem realmente não tem estrutura nenhuma.

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