Kauã, de quatro anos, quer ganhar o “ataque do tubarão” - para quem não sabe um brinquedo com carrinhos em miniatura. Roseane, da mesma idade, se contenta com uma mesinha e quatro cadeiras, mas da Barbie. Caíque esgoelou. Felipe ficou meio assustado, mas não chorou; Maria Júlia entrou em prantos, logo contornados pela mãe, Letícia.
Sentado na casinha de madeira montada na praça “Nossa Senhora da Conceição”, o Papai Noel ouve atentamente a cada pedido. Na segunda-feira passada, porém, não foi muito alegre a sugestão de presente feita a ele por uma garotinha de nove anos, já quase no limite entre acreditar e não no bom velhinho.
Dois dias antes, seu pai havia morrido. Ela, em sua inocência, acreditava que aquele homem de roupa vermelha e barba branca podia interceder, sabe-se lá com quem, para trazer o pai de volta.
Devia ter pensado da mesma maneira que uma mulher que o abordou na casinha montada pela Acif (Associação do Comércio e Indústria de Franca). “Se pode trazer qualquer presente, talvez traga o meu também”. A menina que queria o pai de volta e a mulher pedindo que o filho fosse tirado da cadeia para poder passar o Natal junto a ela não são presenças incomuns
No mais, crianças de todas as idades aguardam a chegada do velhinho não tão comportadas, em fila que se forma às 13 horas e vai até a noite. Em 15 minutos de espera, dia desses, o nome de Maurinho, não mais que quatro anos, foi repetido umas 30 vezes. Maurinho é um capetinha, mas criança, curiosa e inquieta em sua essência.
Quem chega tem a opção de fazer fotografia junto com Noel, estampar a imagem numa caneca de plástico, embora o que se veja mesmo são celulares empunhados tentando pegar o melhor ângulo.
Edmar Antônio da Silva, 44, há 12 anos faz desse período o seu segundo ganha pão. Começou na Avenida Brasil, andando pelas lojas, após uma fase desempregado. Solteiro, morador da Cidade Nova, é sapateiro há 28 anos.
Histórias emocionantes não faltam para Edmar relatar, mas o papai Noel mais assediado de Franca lamenta que, ano a ano, a fantasia das crianças vá desaparecendo cada vez mais cedo, em alguns casos com a ajuda dos pais, já com pouca paciência para manter os filhos no mundo que deveria pertencer a elas. Algumas, com 12 ou 13 anos, ainda mantêm a crença.
Por 19 dias, Edmar vai fazer tripla jornada: de manhã na fábrica e durante a tarde e noite com a roupa quente que o transforma em Noel e que, saibam todos, mesmo em tempo de internet super rápida, de notícia que voa, de comunicação instantânea, por onde passa é observado, percebido.
A recompensa vem na forma de serezinhos pequenos, espantados, mas alegres e afetuosos, cujos abraços são os mais sinceros que podem existir. “Passo o ano esperando e quando acaba o contrato fico triste”, disse o Papai Noel Edmar. “Ver as crianças chegando aqui, correndo para abraçar, é a grande recompensa”.
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