Passava a vida arrastando-se, empurrava sua barriguinha no chão e por isso preferia sempre a grama macia e verde ou as folhas de chuchu. No entanto, por vezes roçava o corpo no asfalto áspero e na terra de pedras pontiagudas. A vida da Lesminha era assim e exigia uma grande persistência da sua parte.
Certo dia a única coisa que queria era atravessar a rua para chegar até um sorvete que estava jogado do outro lado. Colocou toda a sua intenção nisto, respirou fundo e prendeu um tanto grande de ar num ato que parecia encher seu peito de coragem.
As lesmas não possuem ossos e são sensíveis na alma. Você já reparou no traço brilhante que deixam pelo caminho que passam? Pois é, ela foi ao ritmo de encolhe-e-estica, era persistente.
O caminho foi ficando enfeitado. Vagarosa desviou de uma pedra e avançou uns cinco centímetros na sua trajetória. Isso no tempo de um relógio deu uma meia hora. O vento trouxe um guardanapo de papel sujo que caiu bem em cima dela, eca!
Abriu o sinal, muitos pés passaram pela Lesminha que, encolhida, fez uma oração. O mundo de onde ela enxergava era feito de pés.
Pé descalço, pé de salto, pé número trinta e três, pé de sapato rosa, pé de sapato preto, pé de cadarço desamarrado, pé com chulé, pé de chinelo, pé de muleta, pé que descansa na cadeira de roda, pé que pisa na faixa, pé que não pisa direito no chão, pé que pula, pé que corre, pé que é pata e pé de botinas. Passaram todos por ela sem notar sua existência. Ufa!
O sinal fechou para gente e abriu para os carros. Ela continuou encolhida sobre a faixa branca. Sorte que de carro para passar só tinha mesmo um fusquinha azul. Seguiu pela faixa, parou para passar um skatista e depois uma bicicleta. Continuou e parou novamente quando o sinal fechou para os carros e abriu para as pessoas.
Caiu sobre a lesma um pano branco que cheirava a resto azedo de leite. A mulher quando apanhou a fralda levou junto a Lesminha e atravessou a rua. Quando ficou mais atenta, a mãe do bebê deu um grito alto. E bateu com força a fralda jogando assim a nossa amiguinha no chão.
_Poxa, moça, isso não foi gentil! – pensou a lesma e não produziu som algum. As lesmas são mudas.
Empurrou-se mais um pouco e alcançou o delicioso sorvete que estava derretido então foi muito feliz em alcançar o que desejava do fundo de seu milimétrico coraçãozinho.
Às vezes ser feliz não é fácil. É um ato de insistência e esfola um pouco a gente. Às vezes temos que nos arrastar por centímetros e esperar a nossa vez de passar pelo sinal. Temos que ter paciência de lesma. Em alguns momentos, de onde estamos olhando, só podemos enxergar os pés das pessoas. E então pode ser que sem esperar a gente receba uma ajuda que nos atravesse a rua inteira ainda que isso seja sem querer, ou que não seja muito gentil.
O sorvete de casquinha era de dois sabores: chocolate e baunilha. Com a barriguinha cheia ela foi descansar até a grama mais próxima, macia e fresquinha. Alguém veio e jogou no lixo aquilo que restou do sorvete no chão.
Milla Souza
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