Romance O Pintassilgo, vencedor do Pulitzer 2014


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A escritora norte-americana Donna Tartt, 51, já foi incensada por críticos e escritores como Stephen King (o que não é lá grande coisa), chegando a ser comparada a J. D. Salinger - o que, evidentemente, é um exagero. Seu romance O Pintassilgo, com suas 720 páginas, ganhou o Pulitzer e tem muitas qualidades que justificam sua premiação. Os defeitos aparecem com igual potência. O principal deles é forçar uma correspondência analógica entre os atos terroristas da atualidade e a explosão de uma fábrica de pólvora ao lado do ateliê, em Delft, do pintor barroco holandês Carel Fabritius (1622-1654), aluno de Rembrandt, matando o artista, aos 32 anos, e destruindo quase toda a sua obra.
 
Tartt, talvez inspirada na tática de Dan Brown, de conferir uma aura mística a pinturas do passado (O Código Da Vinci), elegeu um pequeno quadro de Fabritius, justamente O Pintassilgo (1654), como signo do cativeiro que mantém Theo Decker, o protagonista do romance, preso ao passado. Fabritius, que a escritora diz ter sido mestre de Vermeer (não foi, esta é uma certeza revelada por fontes biográficas de crédito; mas é um expediente aceito dentro do conceito de licença do tipo poética conferida aos ficcionistas), usou o pintassilgo, a exemplo de outros pintores antes dele (Rafael), como símbolo da paixão de Cristo - em razão da penugem vermelha em volta do bico, associada ao sangue do Redentor. E ela é mesmo uma ave inspiradora, seja pelo detalhe da cor, seja pela explícita delicadeza.
 
Com ou sem simbolismo, o fato é Donna Tartt faz com que seu Theo Decker, aos 13 anos, salve o quadro de um incêndio provocado pela explosão de uma bomba que mata sua mãe e outros inocentes no Metropolitan Museum de Nova York. Todos sabem que O Pintassilgo foi uma das telas de Fabritius que escaparam do incêndio em Delft. É igualmente conhecido o fato de que o quadro jamais foi roubado. Pertence ao acervo do Mauritshuis de Haia e esteve exposto até 19 de janeiro numa mostra temporária da Frick Collection de Nova York. Trata-se, é claro, de outra licença literária da escritora (que levou milhares de pessoas a visitar a exposição por causa do best-seller, e isso foi interessante). Por outro lado, é o tipo de invenção natimorta, anticlimática, ainda mais quando associada a um truque banal.
 
Dito isto, O Pintassilgo começa com promessas que não se cumprem. Theo Decker é uma atualização do Holden Caufield criado por Salinger (o garoto de O Apanhador no Campo de Centeio). Acorrentado ao passado, vemos um jovem febril num hotel de Amsterdã, tendo sonhos com a mãe morta no atentado terrorista, 14 anos antes. 
 
Cheio de culpa por ter fugido com o quadro de Fabritius, que as autoridades acreditam ter sido destruído, e também por sua mãe estar no Metropolitan quando poderia ter ido a outro lugar, Decker vai encontrar o caminho da redenção num antiquário. Para superar a síndrome da culpa do sobrevivente, ele terá, antes, de passar pelo calvário daqueles que testemunharam o fim de uma era, marcada pelo ataque às torres gêmeas, em setembro de 2001.
 
A autora submete o protagonista a mais sofrimentos que um personagem de uma novela russa, estruturando seu romance com forte sotaque dickensiano - com direito a prólogo numa noite de Natal infeliz num hotel ao lado da igreja De Krijtberg (logo a de São Francisco), em Amsterdã. Decker reflete sobre o marco divisório que a morte da mãe representou em sua vida. Depois do atentado, ele vai morar na casa de um amigo, tão sombria que até as plantas murcham, para logo em seguida ser levado pelo pai alcoólatra e jogador a Las Vegas. Milhares de leitores adoraram acompanhar essa via-crúcis. Outros, nem tanto.
 
 
Autora best seller
 
De ascendência italiana, Donna nasceu em 1963, numa pequena cidade do Mississipi. 
 
Formou-se pela Universidade de Bennington, em 1986. Ali conheceu o escritor Bret Easton Ellis. 
 
Tartt começou seu primeiro romance, A História Secreta, durante o segundo ano em Bennington. Foi Ellis que recomendou o seu trabalho a conhecida agente literária, Amanda Urban, que preparou o caminho para o êxito, em 1992. O título chegou a ultrapassar 75.000 exemplares na primeira edição, tornando-se assim um best seller. Foi traduzido em mais de 24 línguas. A trama mostra um ambiente universitário parecido com aquele onde a própria escritora estudou. O enredo inclui um grupo de estudantes e o seu professor de literatura que tecem um plano secreto. Há um crime misterioso e a busca pelo culpado. 
 
O segundo romance, publicado em outubro de 2002, chama-se O Pequeno Amigo e conta mais uma uma aventura misteriosa, do ponto de vista de uma menina de 12 anos, Harriet, e seu amigo Hely, residentes no sul dos Estados Unidos. Seu tema é a perda da inocência, a dor, a culpa, a vingança e a difícil procura da verdade e da justiça. A crítica especializada o recebeu mal; o público adorou. 
 
Terceira obra de ficção da escritora, O Pintassilgo manteve-se durante semanas na lista dos livros mais vendidos do New York Times e conquistou o prestigioso Pulitzer neste 2014.  Outro romance sobre a perda e o que fazer diante dela, foi recebido efusivamente por outra ganhadora do Pulitzer, Michiko Kakutani, editora literária do NYT: “Esta obra gloriosamente dickensiana mostra quantas oitavas emocionais Tartt consegue alcançar como narradora consumada que é.” Mas outro resenhista respeitado, James Wood, assim se manifestou na revista New Yorker: “ O arrebatamento com que O Pintassilgo foi recebido é mais uma prova da infantilização da nossa cultura: um mundo no qual adultos circulam com Harry Potter sob axilas”. 
 
Entre afagos e petardos, a obra triunfa. Já traduzida para 14 idiomas, teve negociados nesta semana seus direitos para adaptação cinematográfica.
 
 
LIVRO
 
Título:  O pintassilgo
Autora: Donna Tartt.
Tradução: Sara Grünhagen.
Editora: Companhia das Letras (728 págs., R$ 49,50).
 
Antonio Gonçalves Filho, jornalista

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