Aposentou-se. Trabalhara por exatos trinta e cinco anos num instituto de educação como professor, e uma parte da integralização de seu serviço como membro da equipe administrativa. Ao longo do tempo, criou experiência e desenvolveu um olhar crítico sobre os diversos e mais complexos problemas da instituição. Por esse fato, era sempre consultado e, via de regra, suas opiniões convergiam para ações que sempre geravam resultados positivos. Aos poucos, deixou a docência e se tornou uma espécie de conselheiro, quase guru da escola. Mas era chegado o tempo de afastar-se, de descansar, diante de tanta insistência da família.
Assim o fez, para desconsolo da escola.
Mas não perdera a mania de aconselhar um, aconselhar outro, até chegar ao ponto de ir falando menos e ouvindo mais.
Desenvolveu, ao longo de quase cinco anos, a capacidade de ouvir, não apenas as lamentações ou alvíssaras de pessoas da família, mas o ruído de pombos fazendo ninho sobre a casa, os passos de transeuntes na calçada; tentava até adivinhar marca e potência de carros que por ali transitavam. Pelo ato de ouvir, intuía a causa da ansiedade do vizinho, do parente , do amigo; pelo ruído, chegava a detectar o defeito da torneira da pia da cozinha, a aproximação de um gavião urbano o que o fazia rápido proteger seus canarinhos da terra metidos em gaiolas, cantarolantes, piadores de boa estirpe. Trovão longínquo e ruído do vento, assim ou assado, eram motivos para predizer chuva fininha ou das grossas.
Divertia-se com os carros, pequenas picapes, que passavam nos arredores de sua casa, anunciando curiosidades: “pamonha quentinha!”, “Consertamos qualquer tipo de panela!”, “Fazemos o que seu marido não consegue fazer na sua casa!” (Epa! Coisa estranha de anunciar, não é mesmo?), “Amolamos faca, tesoura, alicate de unha!”... E assim ouvindo, veio a idéia de supetão. Tempo ocioso e o dom de ouvir, por que não anunciar que estava vendendo “escutatória”? Algo mais ou menos assim: “Está precisando se desabafar?” “ Está engasgada com palavras que ainda não falou?” “Quer um dedinho de prosa para aliviar a tensão do dia?” “Aqui está um seu criado, ao seu dispor!”
A família achou ridícula a ideia, iam tê-lo como um doido varrido. Vê lá se alguém, hoje em dia, mete-se a escutar o que as pessoas estão com vontade de falar! Onde já se viu ou ouviu alguma coisa parecida? Deixe disso, homem, vá tratar de seus passarinhos e gozar sua aposentadoria! Vá jogar bocha no bar da esquina ou leia bem devagarzinho o jornal do dia para o tempo passar! Faça palavras cruzadas, faça uma pipa para seu neto, vá podar a roseira do quintal, cultive um canteiro de alface, salsinha e cebolinha, faça isto, faça aquilo...
O homem riu, achou muita graça de toda aquela preocupação e palpites da família. Mas era teimoso e insistiu em levar adiante seu intento.
Foi a um funileiro automotivo perto de sua casa, adaptou um amplificador de som sobre a capota do carro e saiu, assim, sem prévio anúncio nem mesmo preparação ou programa de como a coisa iria se suceder. Achava que já estava preparado para ouvir.
O que não esperava era ver a quantidade infindável de donas de casa e mesmo alguns sexagenários e acima querendo falar. Ele dirigia lentamente o carro pelas ruas da vizinhança anunciando que estava disposto a ouvir qualquer desabafo. A mulher, atarefadíssima preparando o almoço, ouvia o anúncio, pensava uma, duas vezes, enxugava as mãos no avental, arrumava mal e mal o cabelo e ia para a calçada. Fazia sinal para o escutador e este manobrava o carro junto ao meio-fio da calçada.
Com todas as delicadezas possíveis, tirava do carro duas pequenas banquetas e as ajeitava sobre a calçada. Sentavam-se os dois. A mulher então despejava uma quantidade impressionante de desabafos: o preço da carne, a péssima qualidade das verduras, principalmente da alface, o filho menor que insistia em não querer ir para a escola, o marido que fazia do bar o ponto intermediário, de parada obrigatória, entre o trabalho e o lar, o carnê já vencido de uma loja varejista, o dinheiro que nunca dava no fim do mês... E o homem ali, só escutando. Terminada a ladainha, a mulher se levantava, às vezes pagava algum troquinho, outras nem isso faziam, agradecia muito e entrava aliviada em casa para continuar o cotidiano.
A vizinha seguinte reclamava que sentia falta de ar só de pensar na roupa que tinha por passar. De falta de ar a soluço foi um passo, o mesmo ocorrendo com ansiedade, depressão, dor no peito, dores de cabeça, a aflição de ver o filho angustiado diante das provas do Enem que se aproximavam, o marido reclamando do serviço, unha encravada, dor de dente, insônia, falta de apetite, o marido dizendo todo dia “Mulher, faça o dinheiro dar”, os limites do horizonte, os negrumes do futuro ... E o homem, o escutador, nada dizia, nada aconselhava, nada receitava. Apenas ouvia. E já era o suficiente para a “clientela” sentir-se um tiquinho aliviada.
Esta cena repetiu-se amiudamente. No começo, os maridos pensaram em reclamar a alguma autoridade, mas desistiram da idéia quando observavam que suas esposinhas estavam mais calmas ao chegarem a casa. E mais: havia maridos que se dispunham a conversar com o escutador.
Quanto bem aquele homem aposentado estava fazendo às pessoas com o simples ato de apenas ouvir, só ouvir, simplesmente ouvir, sem nada dizer.
O escutador, às vezes, tentava explicar o seu gesto, dizendo que o rei Salomão já advertia a prestar mais atenção aos passos de alguém do que às suas palavras. “Cultive o dom de ouvir, muito mais do que o de falar”, dizia o escutador, “note como as pessoas não ouvem! Há tanto a falar sobre isso, mas de repente achamos que o nosso tempo e espaço já se esgotaram”. E nos tornamos surdos para a autopreservação.
Os meses foram se sucedendo e a “clientela” só aumentava. Quanta gente, meu Deus, para falar, e quantos poucos ouvidos havia por perto, ou mesmo ninguém que se dispusesse a ouvir. Apenas o nosso bom homem aposentado, o escutador. Era ou não era um bom negócio?
Não sei como termina essa história, mesmo porque seu final deve ser bem menos interessante que a história em si. Sei apenas que tem professor por aí que insiste e insiste em dar aulas de oratória, enquanto deveria pensar num bom curso de escutatória. Acho que foi aí que entendi a fundo o velho ditado: “Falar é prata, ouvir é ouro!”
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos
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