João de Barro


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_Pequeno João de Barro, o que você vai ser quando crescer? – Perguntavam todos os passarinhos com ar de zombaria. Afinal, na mata, João de Barro sempre pode ser apenas uma coisa, construtor.
 
Como são inoportunos todos com essa insistente questão! O João não queria saber de construir casa alguma de barro e nem mesmo boas árvores existiam por ali. Passarinho curioso é como parente chato que fica perguntando o tempo todo o que é que a criança quer ser quando crescer.
 
Então, apesar de ser a criatura mais delicada e doce com quem eu já conversei, soube que ficou irritado com as tais indagações cotidianas e respondeu bravejando como lhe era mesmo pertinente:
 
_Quando crescer eu serei passarinho, só passarinho. Que mania ansiosa essa que todos têm de acelerar meu tempo ou de angustiar minha vida. Assim dão-me um nó antes do bico e engasgado eu nem mesmo consigo cantar.
 
No ar voava agitado o passarinho...
 
No barro brincava outro João, um menino bonito desses engraçadinhos e inteligentes que dão gosto da gente olhar. Cheio de saúde e alegria ele brincava muito distraído. Até que chegou uma tia atrevida e foi perguntando com muita boa intenção.
 
_Pequeno João no barro, o que você vai ser quando crescer?
 
O menino torceu o narizinho de um lado para o outro, limpou as mãos cheias de barro em sua camiseta branca, olhou a tia e simplório respondeu:
 
_ Sabe, tia,  na verdade eu não faço mesmo a menor ideia; se eu conseguisse mesmo ser qualquer coisa que quisesse, acho que ia querer ser passarinho... 
 
A tia pensou muito até que ficou cabisbaixa com a resposta, juntou em silêncio as suas coisas e as colocou na bolsa, depois foi embora com seus pensamentos.
 
 O João de Barro ouviu a conversa e também voou agitado para a mata, estava encasquetado com aquele papo de criança querer ser passarinho. Como isso seria possível?
 
O menino João esqueceu o assunto, criança não dá bola para coisas tão “desimportantes” quanto ao futuro. Apenas deixou pra lá aquela conversa, isso não ocupou nem mesmo um segundo na sua cabecinha tranquila.
 
Então o passarinho resolveu ser um pouco criança e foi brincar no barro com o outro João. 
 
Os anos foram passando enquanto um João aprendia com o outro. Na vida, o menino voou feliz quando cresceu e pôde ser tantas outras coisas além de passarinho, pois virou poeta. O João de Barro construiu sua casa no batente da janela do menino de costas para o vento, porém usou guache para pintar as paredes. 
 
Um passarinho cantava enquanto o outro escrevia.
 
Por Milla Souza, em homenagem ao tão querido e saudoso Manoel de Barros. Dedicado do mais sincero desejo de ter asas feitas pelas “desimportâncias” da vida.
 
 
Milla Souza

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