O Brasil perdeu no último dia 14 de novembro um grande poeta. Seu nome? Manoel de Barros. Ele nasceu em Cuiabá (MT) em 19 de dezembro de 1916. Iria fazer 100 anos em 2016. Tinha, portanto, 98. Além de poeta, foi advogado e fazendeiro. Fez curso sobre cinema e pintura no Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, depois de ter concluído o curso de Direito. Esteve nos Estados Unidos durante um ano, conhecendo novas manifestações de arte. Publicou seu primeiro poema aos 19 anos, mas sua estreia como escritor ocorreu aos 13 anos de idade quando ainda estudava no Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio. Seu primeiro livro foi lançado há mais de sessenta anos, e se chamou Poemas concebidos sem pecado. Nele encontramos o poema O menino que carregava água na peneira que começa assim:
“Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
Era i nesni que roubar o vento e sair
com ele pra mostrar pros irmãos
A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água
O mesmo que criar peixes no bolso.”
Depois de muitos versos lindos, onde procura traduzir a dificuldade de “carregar água em peneira”, ele chega à conclusão de que “escrever seria o mesmo que carregar água em peneira”, ou seja, algo muito difícil, quase impossível.
Outro maravilhoso poema de Manoel de Barros se chama A menina avoada. Nele, dois irmãos, menino e menina, brincam de viajar no quintal de sua casa. Com um caixote e duas latas redondas de goiabada ( naturalmente vazias), eles fazem um carro de bois. A menina entra dentro, o menino puxa os bois e ambos começam a rodar pelo mundo, até que encontram um rio e o atravessam. Isso tudo na imaginação, claro, pois eles não saem do quintal. E criança é assim mesmo, é capaz de inventar tudo o que quiser, sua capacidade de sonhar é imensa. Assim Manoel de Barros, que embora velhinho continuou criança, menino capaz de criar coisas e fatos com sua prodigiosa imaginação. Vejam que bonito:
A menina avoada
Foi na fazenda de meu pai antigamente
Eu teria dois anos; meu irmão, nove.
Meu irmão pregava no caixote
duas rodas de lata de goiabada.
A gente ia viajar.
As rodas ficavam cambaias debaixo do caixote:
Uma olhava para a outra.
Na hora de caminhar
as rodas se abriam para o lado de fora.
De forma que o carro se arrastava no chão.
Eu ia pousada dentro do caixote
com as perninhas encolhidas.
Imitava estar viajando.
Meu irmão puxava o caixote
por uma corda de embira.
Mas o carro era diz-que puxado por dois bois.
Eu comandava os bois:
- Puxa, Maravilha!
- Avança, Redomão!
Meu irmão falava
que eu tomasse cuidado
porque Redomão era coiceiro.
As cigarras derretiam a tarde com seus cantos.
Meu irmão desejava alcançar logo a cidade -
Porque ele tinha uma namorada lá.
A namorada do meu irmão dava febre no corpo dele.
Isso ele contava.
No caminho, antes, a gente precisava
de atravessar um rio inventado.
Na travessia o carro afundou
e os bois morreram afogados.
Eu não morri porque o rio era inventado.
Sempre a gente só chegava no fim do quintal
E meu irmão nunca via a namorada dele -
Que diz-que dava febre em seu corpo.
Outro grande escritor brasileiro, Guimarães Rosa, disse que as pessoas a quem amamos não morrem, elas ficam encantadas. Ou seja, elas permanecem no nosso coração, na nossa imaginação. No caso dos escritores, através dos livros que escreveram. Nós os lemos e é como se eles estivessem presentes, nos contando tudo aquilo que foi inventado.
“Tudo o que não invento é falso”, disse Manoel de Barros. Com isso ele quis nos ensinar que as coisas só existem para nós quando as reinventamos. Ler é uma forma de reinventar o mundo. O gênero criado por Manoel de Barros é a “proesia”, mistura de prosa com poesia. São textos fáceis de ler, pois Manoel de Barros primava pela simplicidade e singeleza. Mas seus versos nos envolvem e nos levam para mundos bem diversos da realidade. Se você nunca leu nada de Manoel de Barros, comece por Memórias Inventadas, da Editora Planeta. Para completar, as ilustrações de Martha de Barros são lindas.
Ah, depois de ler os poemas, pode acontecer de você sentir-se inspirado, bem capaz de inventar histórias, recontar sua infância, e até sonhar em publicar um livro. Isso já aconteceu com muitos leitores deste imortal poeta, como Milla Souza, que o homenageia no Clubinho.
As árvores, os bichos, o rio, o Pantanal
Manoel de Barros nasceu na região do Pantanal, no Mato Grosso, onde viveu a maior parte de sua vida. A natureza exuberante, as águas dos rios, os bichos, as aves, tudo o inspirava. E dali ele extraía a beleza que registrava em palavras. Confira isso nas frases abaixo.
Natureza é uma força que inunda como os desertos.
Eu penso renovar os homens usando borboletas.
Quem anda nos trilhos é trem de ferro; eu sou água que corre entre pedras.
Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas – é de poesia que estão falando.
Passava os dias ali, quieto, no meio das coisas miúdas. E me encantei.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
A voz de um passarinho me recita.
Há um temperamento de eternidade nos caramujos.
Entender é para parede; procure ser árvore.
Meu quintal é maior que meu mundo.
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