Sem quaisquer argumentos para rebater as críticas da oposição implacável que vem sofrendo até dentro de sua base aliada, o governo Dilma Rousseff (PT), em suas últimas declarações, mostra que não está acostumado a ter adversários. Nos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e da própria presidente, reeleita para mais quatro anos como ocupante do Planalto, o Partido dos Trabalhadores se acostumou a não ter uma oposição atuante e ruidosa. Depois do pleito de outubro, o senador Aécio Neves (PSDB), candidato derrotado, resolveu avocar a si a liderança dos descontentes e, embora não tenha conseguido vitórias significativas, vem incomodando bastante o Planalto.
Por isso, a qualquer manifestação, auxiliares diretos da presidente começam a reciclar um discurso que não mais cabe no momento atual, em que a corrupção na Petrobras e nos diversos órgãos da administração pública — conforme denunciou o ex-diretor da estatal, Paulo Roberto Costa, em audiência no Congresso — ainda merece ser explicada pelo governo federal. Desta vez, partiu do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, que defende a criação dos conselhos populares e da regulação (censura) da mídia, medidas que não encontram eco nem entre alguns dos aliados no Congresso.
Durante cerimônia para assinatura de convênios com associações e cooperativas de agricultura orgânica, ontem, em Brasília, Carvalho chamou o senador Aécio Neves de “playboyzinho” e afirmou que as denúncias de corrupção na Petrobrás e as tentativas de envolvimento da presidente Dilma Rousseff são “propaganda, conversa e maledicência” de quem nunca teve coragem de “pôr o dedo na ferida como nós estamos pondo agora”.
Porém, ao contrário do que diz o ministro, o buraco é bem mais abaixo. Diante dos indícios de que o dinheiro da Petrobras escorria pelo ralo da corrupção, com suspeitas de que estivesse financiando campanhas eleitorais, partidos e políticos,até agora não surgiu qualquer integrante do governo capaz de apresentar a posição do Planalto diante da questão. Não basta Dilma Rousseff proclamar ser responsável pela lisura das investigações e que os culpados serão punidos. A investigação do Ministério Público e da Polícia Federal independe da vontade da presidente. A Constituição brasileira garante a independência da PF e do Poder Judiciário.
É preciso, sim, explicar as evidências cada vez maiores de que o PT está envolvido até o pescoço no esquema que minou as finanças da Petrobras por anos a fio. Gilberto Carvalho, que gosta de usar a tese de que “somos nós contra eles” deveria tentar explicar o esquema descoberto pela Operação Lava Jato. Investir contra a oposição para encobrir os próprios erros é estratégia equivocada. Nenhum governo que se queira democrático pode investir contra a oposição, ainda mais com um discurso já envelhecido. A oposição é salutar e deve ser estimulada, pois, do contrário, corre-se o risco baixar a guarda e seguir por caminhos obscuros, destruindo todo o trabalho positivo feito até aqui. Mas para reconhecer isso um político e um partido precisam ter um mínimo de alma democrática, qualidade que falta in totum à presidente da República e ao PT.
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