Sucesso: do fundo do quintal, Frelith é hoje referência em lingerie


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Sueli Pereira e sua Frelith: ‘No começo eu não imaginava ter uma firma. (A costura) era apenas para ser uma ajuda no orçamento’
Sueli Pereira e sua Frelith: ‘No começo eu não imaginava ter uma firma. (A costura) era apenas para ser uma ajuda no orçamento’
Empresas que nasceram do nada e que se tornaram referência em seus ramos de negócio têm, normalmente, histórias inspiradoras. Quase sempre são fruto da obstinação de seus criadores, resultado ininterrupto de muito trabalho. A fábrica de lingeries Frelith, em Franca, enquadra-se perfeitamente nessa descrição. Prestes a completar 30 anos de existência, sua trajetória, como a de seus proprietários, é singular.
 
Até os 18 anos de idade, Sueli Pereira, os pais e mais 10 irmãos viveram na zona rural de Claraval (MG). Em 1979, após herdarem um pedaço de terra, mas sem casa para morar, decidiram vir para Franca. O destino da moça, sem conhecimento de nada, que mal tinha concluído o primário em uma escola da ‘roça’, como o de muitos, foi direcionado para uma fábrica de sapatos. Apesar dos calçados, gostava de costurar, de criar com tecido; gostava de moda.
 
Em Franca foi procurar as aulas no centro comunitário da Capelinha, no Jardim Santo Agostinho. Lá aprendeu a modelar mais profissionalmente, a fazer cortes mais padronizados. Depois da fábrica e entre as aulas no centro, costurava de tudo para a família, aproveitando sobras de outras roupas. 
 
Sueli lembra que não ganhava dinheiro com isso. A renda, um salário mínimo da época, vinha da fábrica onde ficou até os 24 anos. Depois disso, numa sequência bem curta de tempo, vieram o casamento com Onofre, em 1983, e o nascimento de Thaís, um ano depois.
 
Sueli não expressou claramente, mas a vinda da filha, direta e indiretamente, deu os rumos para a empresa que existe hoje. Explicando melhor, foram as roupas que Sueli fez para Thaís, que chamavam a atenção na rua por onde passassem, que a levaram a prestar mais atenção a isso. “As pessoas foram se interessando porque gostavam das roupinhas dela. Comecei a fazer roupa infantil e também já vendia lingerie que pegava pronta em outro lugar”, disse ela, que decidiu fabricar e vender calcinhas para meninas.
 
Da modelagem para crianças não demorou muito para passar a cortar e fabricar as mesmas calcinhas, desta vez maiores, para mulheres. O marido talvez não entendesse porque Sueli cortava as camisolas que não vendia, transformando-as em novas lingeries, mas sempre apoiou a mulher desde o primeiro momento.
 
Nessa época, em que também veio Thales, em 1988, tudo ajudava porque Franca não tinha fábrica nenhuma de lingerie para competir. Com isso, Sueli e Onofre, dos fundos da casa em que moravam, no Jardim Riviera, foram conquistando compradoras.
 
De 10 peças diárias, a produção passou para 20, depois 40. Vendia tudo. Das 7 horas à meia noite, quase diariamente, Sueli cuidava da casa, do casal de filhos e da máquina de costura. Onofre, depois de passar o dia na fábrica de calçados, pegava no batente em casa também. Dessa forma continuaram por cinco anos.
 
Ele, que nunca fez cara feia por ter que mexer com calcinhas, fazia os cortes e ajudava a modelar. Ela costurava e vendia. A Frelith, dessa forma, estava nascendo, como junção das sílabas finais dos nomes de marido e mulher e do início dos nomes dos filhos. 
 
‘Fomos crescendo, mas eu não imaginava ter firma, nada. Era para ser apenas uma ajuda no orçamento. Num primeiro momento, o Onofre estranhou a decisão achando que eu estava louca, mas montei um plano e ele me apoiou, acreditou’, disse Sueli, lembrando que na época não existia orientação, assessoria, nada. Não existia nem matéria prima ou maquinário em Franca. ‘Na verdade, eu não enxergava nem possibilidade de crescimento. Era só vontade mesmo e dedicação’, disse.
 
A pequena fábrica foi tomando corpo e toda a produção continuava sendo vendida. Onofre deixou o emprego e passou a se dedicar integralmente ao negócio. A primeira compra de tecido, no entanto, não deu muito certo. De Ribeirão Preto voltou com um lote de elanca que não era o ideal. Mesmo assim foi aproveitado e as peças foram vendidas. Tudo estava dando certo. 
 
O caminho, lembra Sueli, foi sendo encontrado aos poucos. De São Paulo voltavam com material e mais conhecimento. A comunicação ia melhorando. Em meses, disse a empresária, a vida já tinha melhorado. Comprar presentes para os familiares já não significava ter que abrir mão de alguma coisa por causa do dinheiro sempre contado. O primeiro investimento veio na forma de uma máquina de costura profissional. A irmã de Sueli, Marilza, entra para a empresa, onde está até hoje. Duas costureiras também chegam. A nova etapa requeria mudança de endereço e a empresa, já com mais costureiras, abre uma pequena loja no Jardim Palma.
 
A Frelith, que era para ser apenas um complemento para a família sair do aperto financeiro, hoje emprega 50 pessoas e tem 300 consultoras de venda, que formam seu carro-chefe na distribuição e vendas porta a porta das mais de mil peças produzidas diariamente, entre lingerie, moda praia e moda fitness, com lojas em Franca, Ribeirão Preto e São Carlos. ‘Não era um projeto, não era um sonho. Precisávamos de um dinheiro extra, mas nunca achei que teria condição de administrar uma empresa, que teria esse perfil e essa empresa hoje. Não tinha essa ambição’, disse Sueli, que completa: ‘é uma história até hoje difícil de contar’.
 
Thaís, aos 30 anos, lidera a equipe de criação da marca. Thalles é o responsável pelo marketing da empresa, que emprega muita gente da família. Recentemente, ao procurar por um sítio para comprar na região, foram parar em Claraval. Na cidade vizinha, conseguiram ter de volta a mesma terra sem casa que a família de Sueli deixou 37 anos atrás, por falta de condições para morar. Ela fez questão de contar isso. ‘Vamos para lá todo final de semana e temos os mesmos amigos ainda. Somos muito felizes com a nossa história’. 
 

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