De primeiro, também aqui em Franca, os sindicatos se alimentavam de objetivos muito curtos. A luta por melhores salários, o desejo de melhorias sociais praticamente não povoavam suas pautas. Além disso, os pés pesados da ditadura militar pisoteavam todo anseio por uma vida mais justa, mais digna. O medo calava e impunha a aceitação do status quo. Atuando nesse universo limitado, o Sindicado dos Sapateiros era considerado um bom sindicato, porque possuía um clube dotado de piscina para deleite dos sindicalizados que dele usufruíam nos domingos e feriados. Subsidiava, além disso, os custos de um profissional que cortava cabelo e barba de sapateiros.
Esse painel começou a mudar na década de 1970, quando aqui chegou o eco das vozes dos trabalhadores do ABC Paulista que, junto à luta contra a ditadura militar, começavam a mudar as relações de trabalho no país.
Naquela época, assumiu a paróquia de São Benedito, lá na Boa Vista, um padre que circulava pela cidade, sem batina, pilotando motocicleta. Chamava-se Padre Juquinha. A atuação daquele religioso – depois substituído por Padre Jerônimo - ajudou a canalizar a insatisfação que alteraria fundamentalmente as relações trabalhistas na cidade.
Padre Juquinha lançou aqui a semente das Comunidades Eclesiais de Base, então braço solidário e humano da Igreja Católica. Nelas atuaram muitos que teriam participação decisiva no movimento sindical francano daí pra frente, dentre eles Nélson Fanan e Anivaldo de Paula Oliveira.
Padre Juquinha começou por coordenar reuniões de sapateiros, de comerciários, de donas de casa, de intelectuais... Tudo isso acontecia nos espaços da capela que ele comandava; e nas reuniões, além da troca de informações, as pessoas eram estimuladas a leituras e reflexões sobre a realidade do país e dos trabalhadores.
O tempo, o trabalho e a reflexão resultaram inevitavelmente em maior consciência política e desejo e necessidade de ação.
O resultado foi a conclusão de muitos que trabalhavam em fábricas de calçados de que um sindicato não podia se resumir a um clube de lazer. Era preciso resgatá-lo como instrumento de luta dos trabalhadores.
Pensado, dito e buscado.
Sapateiros, muitos integrantes da Pastoral Operária, resolveram formar chapa e concorrer nas eleições do Sindicato dos Sapateiros. Era ação temerária, à época, e pouca gente se dispunha a correr riscos, inclusive o de ser demitido.
Fábio Cândido da Silva sempre foi um trabalhador corajoso e de ação. Aceitou encabeçar a chapa de oposição e, com ajuda de companheiros de todas as áreas, concorreu e foi eleito presidente do Sindicato dos Sapateiros. Estudantes, professores, assistentes sociais, bancários, intelectuais colaboraram das mais diferentes formas para a eleição da nova diretoria e início dos trabalhos de um “novo sindicato”.
Nos primeiros anos, houve embates históricos entre patrões e operários, sobretudo por ocasião dos dissídios coletivos. Ocorreram greves, violência policial, quebra-quebra.
À frente da massa de sapateiros sempre esteve seu presidente Fábio Cândido, cuja atuação, hoje, são páginas nos anais de nossa História.
Aquele foi um momento em que a luta sindical e a luta política uniram forças para dizer basta à ditadura militar.
Depois, a luta sindical continuou escrevendo novas páginas nas relações de trabalho no país.
Com erros e acertos de todos os lados, o país mudou. Para melhor, é inegável.
E, se houve um homem que não se omitiu, seu nome é Fábio Cândido da Silva.
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
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