O rato da cidade estava perdidamente apaixonado e nem queijo queria comer, vivia pelas tocas e bueiros, era um pouco sujo, porém íntegro e honesto.
_Ah, se ela olhasse para mim!- suspirava...
Rato apaixonado é animal complicado mesmo. Igual ao ser humano, fica meio bobo, é de dar dó. A ratinha era tímida e muito nova para namoros, mas nutria pelo rato apreço e bem querer.
E por acaso ele queria saber de bem- querer? Não, não queria mesmo.
Ele vivia sonhando com os dois olhos abertos. Esbarrava na quina dos móveis, tropeçava em qualquer coisa jogada no chão e comia pasta de dente achando que era requeijão. Andava sempre abobado e zonzo com um único pensamento, estava até chato conversar com ele.
A ratinha ficava corada e constrangida. Era pequenina e delicada, tinha a pelagem toda branca e morava na gaiola de um quarto rosa de menina, tinha nome de boneca, daquela bem conhecida, Barbie.
Um dia a gaiola abriu e a ratinha toda esperta resolveu dar uma volta. Que azar o dela! O gato acordou na sala e resolveu dar um passeio pelo quarto da menina. A ratinha levou um tremendo susto quando deu de cara com o gato. Então, apavorada, sem perguntar coisa alguma, ela saiu correndo desesperada. E rolou escada abaixo, batendo assim – plum-plaft-toin-tec-toc-plac -plec, aiaiai.
O rato desengonçado passeava tranquilamente por ali, mas, vendo tamanha algazarra, avançou contra o gato e esse pobrezinho que nem mesmo era malvado saiu todo arranhado sem nem saber o que estava acontecendo. Gato esperto não vacila com rato apaixonado!
Barbie agradeceu e ficou feliz com a presença do rato.
Ela não se casou com ele por causa disso e nem foram felizes para sempre. Afinal ajudar uma ratinha era a obrigação de todo bom ratão cavalheiro e educado e ele também não queria se casar com ninguém por gratidão.
Foram amigos por muitos anos, inclusive amigos do gato.
Deste dia em diante, antes de sair de sua gaiola e de fugir correndo com medo, Barbie aprendeu a verificar se os seus medos são reais ...
Milla Souza
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