Qualquer pesquisa de opinião coloca a classe política como uma das menos confiáveis do País. O brasileiro não confia e não acredita nos políticos. E eles mesmos não fazem nada para mudar este quadro, exercitando o fisiologismo e priorizando a causa própria em detrimento das demandas populares. Nada do que se prometeu em junho do ano passado, em resposta às manifestações que sacudiram o País, saiu do papel. As reformas política e fiscal continuam adormecidas, mudanças no Código Penal que tornem as penas mais severas e a redução da maioridade penal, entre outras reivindicações, ainda são quase utopia.
Agora, em meio à repercussão das denúncias de corrupção que sacodem a Petrobras, preocupam o governo federal e tiram o sono de parlamentares de diversos partidos, correm de forma quase imperceptível as negociações para reajustar os salários dos deputados, que já custam muito aos cofres públicos -- entre salários e diversas vantagens que ao trabalhador comum não são estendidas — e acabam por revoltar a maioria dos brasileiros. Enquanto a economia anda para trás, causando imensos prejuízos não só às contas públicas, mas que afetam de forma inapelável o setor produtivo, os salários e os empregos, deputados federais querem aumentar seus próprios vencimentos, o que impactará, com o efeito cascata, nas demais casas legislativas do País (estaduais e municipais).
O aumento proposto, se aprovado, colocará o Brasil com uma das maiores remunerações de parlamentares do mundo, superando países como Alemanha ou Noruega e chegando perto do salário pago no Congresso americano. A proposta em debate em Brasília elevaria o salário base de cerca de R$ 26 mil por mês para R$ 33 mil. Em euros, isso significaria um aumento de 8,2 mil euros para 10,7 mil euros pela cotação atual. Poucos parlamentos no mundo pagam uma soma superior a isso. Entre os países ricos, apenas Itália, Japão, EUA e Austrália seguiriam com salários superiores aos dos brasileiros, mas em alguns casos por margem pequena. O problema é que a maioria destes países têm renda per capita muito superior à nossa — a dos EUA é o triplo.
Porém, isso só em comparação aos salários fixos. Porque cada um dos deputados brasileiros gera um custo mensal, atualmente, superior a R$ 140 mil, o que deve subir se o reajuste for aprovado. Somente a Câmara, com seus 513 deputados, paga quase R$ 1 bilhão em vencimentos por ano, sem contar os gastos com funcionários de carreira e serviços correlatos para o seu funcionamento. É um valor bastante elevado, com paralelo em poucos países do mundo. Por isso, vê-se que o brasileiro tem razão em não confiar naqueles que elegem para representá-los. Numa situação difícil, os deputados buscam formas de engordar ainda mais os próprios proventos, sem se preocupar com a situação das contas do País -- a maioria deles se reelegeu. A hora é de contenção e sobriedade. A continuar agindo assim, a classe política pode chegar a um ponto onde estará totalmente descreditada. Aí, não há marketing que consiga trazer de volta a credibilidade perdida.
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