Embora crescente e, aparentemente, irreversível, a predominância de uma arquitetura que tenta vender segurança é um erro, segundo o arquiteto Ivo Indiano. O profissional concorda que a relação comunitária, de amizades, está sendo preterida em nome de uma suposta condição de segurança.
O senhor concorda com o título da outra reportagem?
Ivo Indiano - Concordo, e ainda não sei como lidar com isso. É um assunto e tanto! Penso que é uma coisa muito atual, mas que é pouco discutida, inclusive na universidade. Ainda vivemos uma certa utopia onde o morador sempre tem esperança de conseguir se proteger e à sua família, como se a violência fosse uma doença infecciosa que não se transmite se a pessoa se afastar do infectado.
É uma percepção de violência que hoje independe de classe social?
Indiano - Tanto nas faixas sociais baixas quanto nas altas há o mesmo medo da doença da violência. Poucas pessoas compreendem que a violência social existe em todos os lugares e a solução do isolamento não resolve o problema, pois mais cedo ou mais tarde iremos sair de casa e a insegurança estará lá fora nos esperando. O problema é que algumas soluções construtivas, vendidas como eficazes, são repetidas como se realmente funcionassem, mas não há nenhum estudo sério que comprove que uma casa murada e fechada para a rua reduza o índice de violência. Estudos antropológicos afirmam que a visibilidade é um grande recurso contra a violência, como postes com lâmpadas mais fortes, e provavelmente casas sem muros (mais visíveis) também sejam mais seguras, porém o que vemos é o contrário. É um paradoxo!
Comércio - A arquitetura, como ciência, não poderia iniciar um movimento de reversão dessa tendência?
Indiano - É um ciclo que se autoalimenta. As casas são cada vez mais inexpugnáveis para o exterior e cada vez mais confortáveis por dentro. Como resultado, saímos menos de casa e ficamos cada vez mais isolados dos vizinhos, ou seja, quebramos a célula urbana mínima que é a rua.
Comércio - Como profissional da área, o senhor conhece as origens desse quadro?
Indiano - Não sei dizer sobre o que causou isso, mas com certeza é uma soma de tudo: mais distância a percorrer para o trabalho, menos tempo livre, portanto menos coisas em comum com o vizinho (não trabalham no mesmo lugar). As mulheres, que antes estavam sempre em casa, agora também cumprem horários de trabalho diário, os filhos na escola e atividades o dia inteiro. Mas acima disso vem o medo de perder tudo que se conquistou. Todos sabem que uma cidade pequena onde todos se conhecem é melhor para viver, mas não querem perder o que conquistaram: carreira, bens materiais, conforto, etc. Dessa forma, então, preferem se preservar como a maioria faz.
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