Na tarde do dia 24 de dezembro do ano passado, quando a maior parte das pessoas estava enlouquecendo atrás de presentes e tentando resolver a indecisão do jantar de logo mais à noite, as ruas do Jardim Santa Adélia, um bairro de classe média, eminentemente residencial, na porção centro-norte de Franca, estavam todas silenciosas.
Enquanto isso, no Jardim Aeroporto III, amigos se reuniam em volta da mesa de cerveja colocada na calçada, crianças saíam de uma casa e entravam em outra, sendo que ambas mantinham seus portões abertos. Ao chegar com o carro cheio de sacolas do supermercado, uma vizinha prontamente se ofereceu para ajudar a outra.
Como em muitos bairros, as ruas do Jardim Santa Adélia têm, todas elas, uma característica em comum: são quietas demais, vazias demais. A qualquer hora do dia, seja às 8 horas, 15 ou nove da noite, não serão vistas crianças brincando de bola ou esconde-esconde, nem vizinhos conversando entre si.
O que, à primeira vista, pode ser um ótimo cartão de visitas para quem procura sossego, acaba por esconder uma realidade que está mudando lentamente o convívio social em médias e grandes cidades. A realidade encontrada em Franca hoje é cada vez mais Santa Adélia e cada vez menos Aeroporto.
A “Arquitetura do Medo”, movimento identificado e estudado por arquitetos e urbanistas, está acabando com a vida em comunidade. Motivados pela falta de segurança e acreditando que muros altos, grandes esquemas de segurança e o isolamento cada vez maior podem afastar o risco da violência, moradores estão se trancando em casa e construindo verdadeiros bunkers.
Na tentativa de se proteger, muitos estão construindo verdadeiras aberrações arquitetônicas, com cercas elétricas, arames farpados, grades de todo tipo, muros com quatro ou cinco metros de altura, criando uma falsa sensação de proteção com seu enclausuramento particular. Muitas tomam o aspecto de prisões. Não chegamos ainda aos exemplos de São Paulo e Rio de Janeiro, onde alguns imóveis já dispõem de solários, ou seja, locais exclusivamente destinados a tomar sol, símbolo máximo da opressão que a falta de liberdade traz.
Embora o fenômeno possa ser visto em praticamente toda a área urbana de Franca, ainda é na periferia e nos bairros mais populares que a noção de interação resiste.
Quem já teve a oportunidade de visitar o interior dos Estados Unidos, Canadá ou Itália, entre outros países, certamente presenciou casas sem muro e quintais não demarcados. Mesmo em cidades como Boston, no noroeste americano, com quase seis milhões de habitantes e uma das maiores concentrações de imigrantes brasileiros naquele país, viver fechado com grades, muros altos e portões eletrônicos é uma exceção.
Para quem vive de atender a essa demanda, a tendência ocorre em todo o Brasil e não é exclusividade local. José Alexandre Jorge, presidente da Associação Comercial de Franca, é empresário do setor de automação e segurança residencial. Mesmo sem dados estatísticos, ele acredita que algo em torno de 95% dos proprietários de novos imóveis construídos em Franca procure por algum tipo de serviço nesta área.
Em sua opinião, não existem sistemas ou equipamentos 100% seguros e quanto mais coisas vão sendo adicionados, mais caro, obviamente, o projeto vai ficar.
Mas, como indicam alguns estudos já realizados, inclusive por órgãos de segurança pública, uma casa fechada hermeticamente como um carro forte não garante muita coisa. “Existe certa preferência do ladrão pelo imóvel que não oferece risco e por aqueles muitos fechados, quando o ladrão pode entrar e ficar lá o tempo que quiser, enquanto naquelas com alguma visão fica mais fácil perceber algo de errado”, disse.
Para o empresário, seria necessária uma revolução na educação e na legislação para que esse quadro mudasse. “Enquanto isso não acontece, vamos vivendo, assim, isolados, infelizmente”, disse ele.
A comerciante Ângela Bonfim Ribeiro, 47, moradora do Jardim Francano, está, assumidamente, do lado de quem se isola em casa. Separada, com dois filhos, ela admite que “até tem” uma vida social, mas que a violência, ou pelo menos a sensação dela, tem feito a moradora e a família passarem cada vez mais dias fechadas em casa. Não conversa com os vizinhos e sua casa não tem uma fresta sequer que permita ver o interior da residência.
“Não conseguiria trabalhar sabendo que minha casa e minhas coisas podem ser roubadas”, disse Ângela. Reformada recentemente, além do muro muito alto, podem ser vistas quatro câmeras de monitoramento, já que está numa esquina.
Dentro do imóvel, mais equipamentos, como alarmes sensíveis ao movimento completam o esquema, que acionar a proprietária pelo celular na ocorrência de algum problema. Ela calcula ter gasto mais de R$ 25 mil nesses itens, somada à mão de obra e construção de muro e portão.
“Foi a única maneira que encontrei para não ficar neurótica, pensando no pior. Nunca fui assaltada nem roubada, mas não quero passar pelo o que amigos e parentes já passaram. É o preço que temos de pagar pela falta de segurança”, disse. Quanto perguntada se acredita que todo o aparato pode, de fato, mantê-la segura, a comerciante falou que sente isso de forma relativa. “Em algum momento precisamos entrar ou sair de casa”.
Entre os críticos desse processo, o arquiteto Ivo Indiano avalia que soluções construtivas estão sendo vendidas como a solução para todos os problemas, assim como condomínios fechados tentam passar a imagem utópica de uma cidade perfeita, sem assaltos, sem pobres, sem bares. “Se você perguntar para qualquer pessoa, mesmo que nunca tenha sido assaltada, ela dirá que sente insegurança e medo. Os meios de comunicação, principalmente a televisão, se alimentam disso. Ninguém quer admitir que a violência é inerente ao ser humano”.
‘A vida acontece na rua’
Essa frase se trata de uma máxima do jornalismo, sugerindo que jornalistas saiam das redações e passem a enxergar a cidade, as pessoas e o mundo exterior como palco principal dos acontecimentos.
Uma volta por alguns bairros de Franca deixa a sensação de que nem tudo está perdido. No Miramontes, por exemplo, a movimentação nas ruas de um dia comum de semana era grande.
Sentado sob a sibipiruna que plantou 40 anos atrás, Sérgio Missias da Silva, 46, passava a tarde batendo papo com amigo Antônio Soares, também morador do bairro.
No Miramontes, a baixa rotatividade de moradores e quase nenhuma nova casa podem explicar a vida simples que todos levam por lá. Pode também ajudar a entender porque um único roubo foi praticado em anos, numa casa no ponto em que Silva mora. “Não creio que me daria bem em outro bairro. Não teria a liberdade que tenho aqui”, ponderou ele.
No Aeroporto III, Ilma Maria Campos, 53, conhece todos os vizinhos da Rua Manoel da Silva Paulino pelos nomes, onde, garante ela, todos se ajudam.
Maria da Conceição, 67, com quem Ilma conversava, mora em uma casa simples na mesma rua. Vinda de SP, acredita que uma das vantagens do bairro é a convivência entre as pessoas. “Aqui não é preciso cerca de arame, câmera de vigilância. Nada disso”.
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