Olhar e falar


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Conhecemos o mundo através dos sentidos. Através da visão, do tato, do paladar, da audição e do olfato podemos ver, ouvir e sentir as pessoas, as coisas, os cheiros e os sabores. 
 
Enriquecemos nosso mundo interno e externo quando conseguimos mesclar e potencializar esses sentidos. 
 
É possível ‘ver’ com o tato, com a audição, com o olfato e com o paladar, mesmo não tendo a visão. Os deficientes visuais veem além, enxergam mais que muitos dos dotados da visão. É estranho, mas só damos valor aos sentidos quando os perdemos.
 
Estive pensando estes dias, na força do olhar e do falar. Um simples olhar diz muito mais que palavras, expressa nosso sentimento e ‘lê’ sentimentos dos outros. O olhar do outro é indispensável ao ser humano. 
 
Precisamos ser ‘olhados’. Só aí percebemos quem somos. Algo semelhante ocorre com a fala, com a palavra. 
 
Somos banhados de civilização com a palavra. Apreendemos através da fala e reproduzimos nosso mundo interno através de nosso discurso. Ao falar, mostramos ao outro a dimensão de nossos conhecimentos. 
 
O ser humano não ‘olhado’, não ‘falado’, não ‘desejado’, deixa de ser humano. 
 
Como pretendemos mudar o rumo da criminalidade se delinquentes não foram olhados, falados ou desejados? Não pode ser o crime a forma encontrada para que m pouco de reconhecimento possam ter? 
 
O que fazemos com eles? Os enfiamos em buracos escuros, sem ventilação, sem condições mínimas de dignidade, e, novamente, negamos a eles o direito de serem ‘olhados’, ‘falados’ e ‘desejados’. 
 
Ora, se reproduzimos o ciclo vicioso, não é certo que chegaremos sempre ao mesmo lugar? Mudar nossos discursos e nossos olhares, ao contrário do fizemos até agora, pode permitir a reconstrução ao invés da destruição. Inegável que tanto a palavra quanto o olhar têm poder para construir e destruir. O falar e o olhar se pertencem, e a nós também! 
 
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
 

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