Há pelo menos 40 anos, a Petrobras (ainda hoje a maior estatal brasileira, com atuação em diversos pontos do planeta) é conhecida como um antro de corrupção, utilizada para “fazer dinheiro” não apenas para partidos e agentes políticos, mas também para seus funcionários. O esquema que funcionou ali por décadas — e que só agora vem sendo investigado pela Operação Lava Jato, levada à cabo pelas Polícia e Justiça Federal — já foi conhecido por ‘dezinho’ (10% do dinheiro pago às empreiteiras que prestavam serviço à empresa ia para a corrução). Hoje, de acordo com o ex-diretor Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef, o percentual caiu: agora são “apenas 3%” (!!!!).
Duas frases pinçadas do noticiário desta última semana não causaram o devido impacto. A primeira, do advogado Mário de Oliveira Filho, advogado do lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como “operador do PMDB” no esquema (ele nega), segundo o qual “sem pagamento de propina não se faz obra pública no Brasil”. A outra, do ministro da Justiça, José Eduardo Cardoso: “A corrupção é cultural no Brasil”. As duas deixam claro que a prática é comum não apenas na Petrobras, mas deve se alastrar por outros entes públicos, já que a maioria das empreiteiras que participavam do esquema na petroleira é responsável pelas grandes obras públicas no País.
José Eduardo Cardozo vai mais longe e responsabiliza o próprio brasileiro por esta situação. Ele diz que a classe política é um “reflexo da sociedade” que, ao não distinguir o público e o privado, escolhe sem esse critério seus representantes “e depois os reprime sem olhar para si”. Ele tem toda a razão. O brasileiro ainda não tem consciência da importância de seu voto. Prefere eleger corruptos, figuras folclóricas e até mesmo condenadas pela Justiça. Estes últimos só não conseguem tomar posse por causa da Lei da Ficha Limpa que tem embasado as decisões do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O eleitor brasileiro não busca avaliar o peso de sua escolha e nem as propostas dos candidatos. Não quer ‘perder’ o voto, como se a eleição fosse uma aposta ou um jogo.
Além disso, vivemos cotidianamente com a corrupção e não nos incomodamos. Oferecer ‘uma cervejinha’ para que um agente público faça vistas grossas a alguma infração tornou-se comum. Tornou-se normal tentar subornar um guarda de trânsito, uma autoridade policial ou um fiscal da Receita. O brasileiro se acostumou ao jeitinho, à “manha”, ao “cala-boca”. Corromper (e ser corrompido) tornou-se cultural, mesmo, uma situação triste para este nosso País.
A indignação com os casos de corrupção que estão surgindo diariamente nas notícias da mídia -- jornais, revistas, rádio e televisão, além da Internet -- deveria ser dirigida também à base da sociedade, aos atos considerados de “pequeno poder ofensivo”. Não basta clamar por justiça contra os responsáveis pela situação da Petrobras. É preciso que nos insurjamos contra a corrupção do dia a dia. Se o problema não for combatido na base, dificilmente seremos capazes de acabar com este câncer que corrói os cofres públicos brasileiros.
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