Definir retórica não é simples em razão dos vários sentidos que a palavra é utilizada. Pensadores a definem como ‘geradora de persuasão’ (Córax e Tísias), ‘capaz de descobrir os meios de persuasão relativos a um dado assunto’ (Aristóteles), ‘faculdade de falar bem no que concerne a assuntos públicos’ (Hermágoras), ‘a ciência de bem falar’ (Cícero). Essas definições convergem no sentido de que na retórica busca-se elaborar e a criare discursos persuasivos, ou seja, discursos capazes de aproximar os interlocutores e fazer com que eles passem a pensar e agir como deseja o orador. Podemos entender que a retórica é, então, comunicação que visa persuasão. Sendo assim, todos nós, seres humanos, somos retóricos. Em todas as nossas conversas, mesmo as cotidianas, buscamos, de certa foram, persuadir o outro, o interlocutor. Ora tentamos defender, ora acusamos, e fazemos isso partindo de argumentos que acreditamos.
Para Aristóteles catorze são as paixões do ser humano: cólera, calma, temor, segurança (confiança, audácia), inveja, imprudência, amor, ódio, vergonha, emulação, compaixão, favor (obsequiosidade), indignação e desprezo. Para ele, as paixões ‘são um teclado no qual o orador toca para convencer’. Para Meyer, prefaciador da obra Retórica das Paixões de Aristóteles, ‘as paixões são representações, definem a identidade dos sujeitos e a referência é considerada partindo de como a pessoa se coloca diante do outro (superior, igual ou inferior)”, ou seja, a ‘identidade e a diferença, supostas ou reais’. Sendo assim, no temor e na confiança há ‘uma relação assimétrica entre os interlocutores. Tememos os fortes e os que podem causar mal.”
Ao contrário do que pensamos, para Aristóteles o antídoto ao temor não é a coragem, mas a confiança representada pela calma, o estado de equilíbrio. Falar sobre paixões é apaixonante porque se lida com o prazer. Temor também dá prazer? Na justiça positivista, pautada somente na lei, há espaço para paixões? Para refletir sobre isso organizamos um seminário sobre o Medo, que terá uma abordagem antropológica, jurídica, psicanalítica e retórica, e acontecerá na Unifran amanhã.
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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