A refém-eleita


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Dilma Roussef recebeu 48,366% dos votos apurados. Significa que a maioria dos que compareceram às urnas (51,633%) lhe negaram segundo mandato. A dimensão aritmética da democracia legitima igualmente a vitória por esmagadora maioria e a vitória por margem diminuta. Não deixa, entretanto, de haver significado, ao menos para quem deseja governo mais eficiente e menos envolto em ‘malfeitos’. 
 
Em 2010 a oposição e parte da imprensa a chamavam poste, destacando sua irrelevância política e deixar claro que luz-que-atrai-votos pertencia a outro ator que fingia sair de cena para elegê-la presidente sem abandonar os cordéis. Iniciou o primeiro mandato constrangida, submetida às exigências do partido e também as da enorme e indisciplinada base de apoio no Congresso. 
 
Além de aceitar ministros impostos pelo ‘dono da luz’, teve de ampliar ministérios para acomodar os apoiadores. Se não sabia, Dilma teve de aprender que política é jogo de xadrez em que a ética vive em xeque-mate.
 
Quase abandonada por Lula e parte do PT às próprias limitações políticas como punição por rompantes de independência, por pouco não se reelegeu. Saiu das urnas obrigada a adotar tons conciliatórios. Refém estava, refém continuará.
 
Hostilizada por parte do partido, chantageada pela base de apoio e enfrentando a ira da oposição, não governará segundo seus princípios morais. Dizia o poeta que ninguém é mais escravo do que aquele que se considera livre sem sê-lo. Pouco poderá fazer para imprimir marca distinta do mandato dos últimos quatro anos. O presidencialismo, enquanto assentado nas regras vigentes, está fadado a produzir párias do poder que ostentam a pompa mas não passam de serviçais de interesses quase sempre contrários à ética inscrita nas normas constitucionais.
  
Caleb Salomão
Professor de Direito Constitucional da Faculdade de Direito de Vitória (ES)

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