O descaso no setor de Saúde Pública está prolongando o sofrimento de mulheres vítimas de câncer de mama em Franca. A fila de espera por uma cirurgia plástica reparadora após a retirada do tumor não anda. Mesmo com lei federal obrigando hospitais integrantes do SUS a fazerem o procedimento imediatamente após a paciente alcançar as condições clínicas requeridas, o direito não é respeitado. Pelo menos 15 mulheres estão há mais de dois anos aguardando o chamado da Santa Casa. Além da gravidade da doença, a demora tem sido outro duro golpe na autoestima de quem teve um pedaço do seio mutilado. A situação, que o município, hospital e Estado parecem tentar esconder, é tão preocupante que levou o Ministério Público a abrir inquérito civil para apurar a situação e garantir o cumprimento da lei.
Exemplos para ilustrar o desrespeito com quem enfrentou o câncer e passou pelo duro tratamento não faltam. “Tirei a mama em 2009. Uso um extensor no corpo, que machuca e incomoda. Há cerca de dois anos, dei entrada com o pedido para fazer a reconstrução e eles só ficam me enrolando. Dizem que é preciso esperar uma prótese, que não chega nunca. Estou muito chateada”, disse Iraciara Oliveira Moreira Limonti, 48.
Luzia da Silva Ramos Matos, 51, tirou a mama há seis anos. Ela afirma estar esperando pela cirurgia de reparação há três. “A estética não é único problema. Como um seio ficou maior que o outro, sinto muitas dores nas costas. Incomoda muito. Me disseram que a cirurgia teria sido autorizada, mas a Santa Casa nunca me chama.”
Em julho de 2013, o Comércio contou a história de Fernanda Melo, 44, que já estava havia dois anos na fila de espera. “Sem exagero, essa cirurgia fará nos sentirmos mulheres outra vez. Damos graças a Deus por estarmos vivas, mas foi tirado um pedaço de nós”, disse ela. Em nota enviada na oportunidade, a Secretaria Estadual de Saúde afirmou que a cirurgia estava liberada e que a paciente seria encaminhada para a Santa Casa “até o final da próxima semana”. Dezesseis meses depois, nada mudou. “Minha mulher continua esperando”, afirmou na manhã de ontem o marido dela João Silva.
Inquérito
Em fevereiro, o vereador Pastor Otávio Pinheiro (PTB) encaminhou ofícios à Secretaria de Estado da Saúde cobrando o cumprimento da lei. Ele também denunciou o caso ao MP. O promotor Eduardo Tostes abriu investigação para apurar as possíveis irregularidades e passou a fazer cobranças mensais à Santa Casa e à DRS (Departamento Regional de Saúde). Em setembro, ele escreveu em um relatório que o encaminhamento do caso era “burocrático e sem resolutividade”. Citou ainda que havia pedido um plano de trabalho “sem sucesso”. Novo ofício foi expedido no último dia 3 de novembro, questionando a situação atual. As respostas ainda não chegaram.
Em nota enviada ao Comércio, a Secretaria Estadual de Saúde afirmou que não há “nenhum” pedido de encaminhamento parado na DRS e que todos os casos recebidos são “prontamente” avaliados e encaminhados para os serviços de referência. “A oferta de serviços especializados não é uma prerrogativa exclusiva das Secretarias de Estado da Saúde. Cabe também às Prefeituras e a própria União”.
A secretaria disse ainda que uma paciente teria feito a operação em setembro e em outros dois casos foram avaliados e não há indicação para cirurgia.
Questionada sobre os motivos pelos quais as cirurgias não são realizadas e qual a previsão delas, a Santa Casa divulgou texto sem qualquer explicação. “Os procedimentos eletivos, ou seja, os programados, como é o caso da cirurgia plástica mamária pós-mastectomia são encaminhados pelo gestor (DRS-VIII) de acordo com a pactuação vigente e, posteriormente agendados após a avaliação médica”. A secretária municipal de Saúde, Rosane Moscardini, não respondeu às perguntas sobre os casos.
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