‘Em design de calçados, ainda estamos engatinhando’


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Alberto Lima já venceu três edições do Top de Estilismo da Francal, um dos maiores prêmios da área. Suas criações agora estão sendo avaliadas para serem produzidas em grande escala por uma multinacional
Alberto Lima já venceu três edições do Top de Estilismo da Francal, um dos maiores prêmios da área. Suas criações agora estão sendo avaliadas para serem produzidas em grande escala por uma multinacional
Aos 32 anos, o francano Alberto Lima acaba de conquistar um feito para poucos. Pela terceira vez, uma de suas criações é premiada no Top de Estilismo, concurso promovido pela Francal Feiras para descobrir talentos em design de calçados. O Top é considerado um dos prêmios de maior relevância no País.
 
Neste ano, Alberto criou um sapato feminino desmontável, em que a mulher pode escolher entre três tipos de cabedais, saltos e cores. “Fazendo combinações diferentes, é possível montar 27 sapatos para diversas ocasiões”, disse.
 
Com a ajuda do Senai, onde leciona nos cursos de calçado e mecânica, Alberto conseguiu patentear a criação. Agora está em fase de negociação com uma multinacional para transformar o projeto em um produto de mercado. “Ainda estamos conversando. Não é um processo fácil.”
 
Nesta segunda-feira, ele viaja para São Paulo onde participa à noite da cerimônia de premiação do Top de Estilismo. Ele venceu na categoria calçado feminino. Outros francanos também estarão presentes. Nesta edição, que celebra os 20 anos do prêmio, foram inscritas 135 criações. Na categoria de calçados masculinos, dos quatro premiados, três são da cidade.
 
Alberto ainda deverá ficar na capital até quinta-feira. “Fui escolhido pela Fiesp para participar de um evento com empresários interessados em novos produtos. Vou apresentar meu projeto.”
 
O sapato desmontável não é única criação de Alberto que chamou a atenção de empresários. Um tênis confeccionado em neoprene com controle de temperatura é outra invenção que está sendo negociada. O tênis, por meio de um sistema tecnológico, consegue esquentar ou resfriar o pé de seu usuário. “Estamos agora fazendo estudos para aperfeiçoar o tênis para que ele consiga, com o mesmo sistema, desempenhar outras funções.” 
 
Ainda na área de calçados, Alberto também criou uma sandália ecológica em que não são usadas colas ou peças de borracha. Ela é toda costurada e confeccionada em couro. 
 
Apesar dos prêmios e do destaque, o professor disse que ainda não consegue viver apenas projetando calçados. Ele é professor.
 
Alberto é casado e pai de dois filhos. O mais novo, de 3 anos, nasceu com diversos problemas de saúde que demandam gastos altos com tratamentos, médicos e remédios. “Isso sem falar na atenção e preocupação. É complicado. Não teria dinheiro para investir em tecnologia, pesquisas e materiais. Só consigo desenvolver essas peças graças ao apoio do Senai. Além disso, registrar patentes no Brasil não é para qualquer um. O custo é muito alto, no mínimo, R$ 10 mil.”

Como começou seu envolvimento com calçados?
Na verdade, não sei bem explicar. Lembro da época em que era moleque e adorava desenhar. Meus desenhos eram sempre de tênis. Era fascinado pelos da Nike. Fazia modelos personalizados, com diversos tipos de solados. Sempre que tinha um tempo livre, me distraia desenhando. Tinha um monte de cadernos lotados de imagens. Infelizmente não sei o que fiz com esse material. Acabei perdendo. Na adolescência, como também gostava muito de carros e máquinas, resolvi fazer um curso técnico de mecânica aqui no Senai. No meio do curso, descobri que gostava muito de trabalhar com moldes para solados. Foi meu primeiro contato com os calçados. Em uma cidade como Franca, é impossível a gente não se envolver com esse setor. Foi mexendo com solados que comecei a me interessar e a aprender sobre a composição dos calçados, suas partes, sua montagem e seu processo industrial. Fiz mais de 30 cursos na área, mas não sou formado em design nem fiz faculdade. Estava fazendo um curso de modelagem quando criei meu primeiro sapato. Eu o inscrevi para o prêmio Top de Estilismo e acabei ganhando o segundo lugar em 2010. Foi um susto. Daí em diante não parei mais. 
 
De onde vem a inspiração para as criações?
Sempre penso em soluções para o dia a dia das pessoas. Para esse meu primeiro calçado, por exemplo, pensei em aumentar o conforto e criei um solado diferente, mais flexível. A criação deste ano nasceu quando vi minha mulher carregando um monte de sapatos no carro, um para cada ocasião. Pensei: ‘Por que não ter todos em um sapato só?’ E comecei a desenvolver o projeto. Fiz um sapato que a mulher pode usar em diversas ocasiões. Ele é prático, leve e fácil de transportar. Ela não precisa carregar vários pares, tem todos em um só. 
 
Mas a ideia, a concepção do calçado, como surgem?
Vou falar mas você não vai acreditar. Normalmente, surgem em um sonho. Acordo no meio da noite com a ideia praticamente pronta na minha cabeça. Antes, não tinha o costume de levantar para esboçar o modelo no papel. Nem sei quantas criações acabei perdendo porque acordava de manhã e não lembrava dos detalhes, não conseguia lembrar de quase nada. Agora deixo sempre um bloco com lápis por perto e, mesmo com preguiça, levanto. Outro lugar em que costumo ter ideia é no banheiro, durante o banho, que para mim é um momento sagrado. Esses insights são naturais, acontecem sem que possa controlá-los. Não têm muita explicação.
 
Há pouco mais de uma década, quase não se ouvia falar em designers de calçados. Normalmente, as fábricas investiam pouco em criação. O máximo que faziam era custear viagens ao exterior para que os profissionais pudessem copiar modelos feitos fora do Brasil. Como é a realidade desse mercado hoje?
Para mim, é um pouco difícil falar sobre esse assunto porque não trabalho diretamente nesta área. Sou um profissional do Senai que, como tal, lida com os designers das fábricas porque aqui também auxiliamos no desenvolvimento de novas linhas e produtos. Mas pelo que sei, essa realidade não mudou muito. A cópia ainda é muito comum neste meio no Brasil e em Franca. Mas, aos poucos, isso está mudando. Hoje já existem indústrias que investem em desenvolvimento, que possuem setores especialmente montados para a criação. Ainda estamos engatinhando quando o assunto é design de calçados, mas logo estaremos andando. Nesta última década, os avanços para a indústria foram enormes. Hoje temos tecnologia avançada sendo usada, como as impressoras em 3D e maquinário de corte também de última geração. Acredito que, no futuro, se houver investimentos, não teremos mais que copiar os modelos de sapatos europeus.
 
O curioso é que a cópia de modelos de lançamento é uma preocupação dos calçadistas francanos quando lançam suas coleções em grandes feiras. Os estandes normalmente são fechados e o acesso controlado. Mas você está dizendo que ainda existem cópias de modelos de outros fabricantes internacionais... 
Existe sim, mas não nas grandes empresas que têm recursos para investir nas feiras. Estas têm coleções próprias, desenvolvidas dentro dos seus setores de criação e realmente se preocupam com a pirataria porque gastaram e investiram. Mas esta não é a realidade da maioria. A maioria dos donos de fábricas ainda não tem essa mentalidade de investir em design. Acham que um profissional que não está esticando couro ou batendo martelo não está trabalhando, o que não é verdade. A criação deveria ser um dos setores mais valorizados de uma fábrica de calçados, mas em Franca é relegado a segundo plano. Essa mentalidade do empresariado precisa mudar. A indústria de calçados, principalmente o masculino, conseguiu sobreviver à concorrência chinesa justamente por conta da qualidade do sapato que produz e a qualidade está diretamente ligada a design. 
 
Você já foi vítima da pirataria? Já copiaram seus modelos?
De pirataria propriamente dita, não. O que aconteceu foi que muitas coleções lançadas depois do Top de Estilismo tinham não sido copiadas, mas aproveitado alguns conceitos existentes nos meus sapatos. O primeiro modelo meu premiado serviu de inspiração para muitos outros modelos. 
 
E como você se sente quando isso acontece?
Na verdade, quando participamos de um prêmio como o Top de Estilismo, a preocupação não deve ser esta (com a cópia). Esse tipo de premiação serve justamente para ampliar os horizontes, lançar tendências e trazer novidades. Os modelos premiados têm de servir de inspiração mesmo. Não me incomodo. Fico até lisonjeado quando vejo uma fábrica lançando um produto inspirado na minha criação. O que não se pode admitir é a cópia descarada. É a fábrica usar seu modelo para produzir o sapato em escala industrial como se ele fosse uma criação própria. Isso não admito. Isso é violação dos direitos autorais. É falta de respeito. 
 
Para você, o design ainda não é um meio de vida. Por quê?
Porque não tenho como investir em um negócio próprio. Não tenho recursos para isso. Já pensei em montar um escritório de consultoria em design de calçados, mas para isso precisaria ter dinheiro para investir em programas de computador modernos e em equipamentos. Hoje em dia é difícil falar em design sem uma impressora 3D. Sou professor, tenho família, não tenho recursos ainda. Aqui no Senai recebo todo o apoio. Tenho acesso às novas tecnologias, aos lançamentos de maquinários e ainda fico em contato direto com as necessidades das empresas. 
 
Suas criações não renderam dinheiro para você?
Ainda não. A não ser o dos prêmios que recebi que não são um volume grande. Tenho destaque e reconhecimento, o que também é bacana. 
 
Suas criações, então, não foram aproveitadas pelo mercado...
Ainda não. Na verdade, entre o protótipo que criamos para um prêmio e uma linha de produção o caminho não é fácil. Mais uma vez, é preciso investimento. Mas estou em negociação para comercializar duas das minhas criações. Uma é o modelo premiado este ano pelo Top de Estilismo. Uma multinacional do setor de plástico e têxtil que não posso revelar o nome me procurou e está interessada em investir na produção deste calçado multifuncional para mulheres. Mas ainda é preciso pensar em termos industriais, em custo de produção e um monte de outros detalhes. Nesta semana, também vou participar de uma rodada de negócios da Fiesp, onde apresentarei esse protótipo para outros empresários. A ideia é convencê-los a investir. Outra criação que também estou negociando é a do tênis com controle de temperatura. Já tenho interessados, mas eles pediram aperfeiçoamentos, com o uso de novas tecnologias. 
 
Como vê o futuro da indústria calçadista francana? 
Para mim, o futuro é investir cada vez mais em design, no lançamento de mais coleções durante o ano. Quanto mais bonito, confortável e funcional for um calçado mais interesse ele despertará. Temos material humano para isso. Profissionais criativos e com ideias inovadoras, mas faltam investimentos. Só mudaremos esse cenário quando os empresários se conscientizarem disto.

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