Realidade x discurso


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Nem bem foi reeleita, Dilma Rousseff passa a ser assombrada por uma série de índices negativos que colocam a economia brasileira sob suspeição. Não se acredita que ela tenha condições de reverter o quadro negro que se desenha para o seu segundo mandato caso não mude radicalmente a condução da política econômica. Embora ontem tenha sido divulgada uma queda na taxa de desemprego no segundo trimestre deste ano, de acordo com a Pnad Contínua do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os demais indicadores continuam apontando para uma economia fraca, com poucas possibilidades de crescimento em médio e curto prazos. 
 
O desafio do governo, além de combater a inflação que continua crescendo, é alavancar o setor produtivo sem que isso impacte os ganhos do trabalhador comum, que ganha até três salários mínimos. O arrocho salarial, em razão da elevação de tributos e impostos, além da criação de taxas, é uma das maiores preocupações do brasileiro. A ex-senadora Marina Silva (PSB), candidata à presidência da República que ficou em terceiro lugar no primeiro turno, disse ontem que o governo federal -- e, por extensão, a presidente reeleita -- está passando por uma dose de realidade, contrariando frotalmente o seu discurso durante a campanha eleitoral. 
 
Hoje, a economia continua em queda, a inflação continua sem controle e o número de pessoas vivendo na linha da pobreza aumentou entre 2012 e 2013. Este último dado foi divulgado anteontem pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. De acordo com o instituto, o Brasil tem hoje 4% de sua população vivendo em extrema pobreza no País (em 2012 eram 3,6%). É um contingente de 10,45 milhões de pessoas, maior do que a população de muitos países do mundo. Porém, a reação do governo chama a atenção.
 
Em vez de buscar as causas do aumento dos miseráveis no País e saídas para reverter a situação, o governo fereral aposta em discursos irritados de seus ministros para tentar descontextualizar e descaracterizar o levantamento do Ipea. A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, afirmou que a diferença deve-se a uma flutuação estatística, uma diferença na amostra, dentro da margem de erro do levantamento. Apesar de estar dentro da margem de erro, o pequeno aumento é o primeiro desde que o Ipea iniciou a série histórica para esses dados, em 2004. O ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), Marcelo Neri, tentou desqualificar o estudo e usa dados da Pnad do IBGE para desmentir os dados. Porém, o estudo do Ipea se baseou nas pesquisas do IBGE. Para ele, a imprensa está focando um dado específico que representa “fatores temporários” e não reflete a realidade. O problema é que, assim como outros índices que favorecem a política social do governo, especialistas alertam para uma metodologia que infla os números e realmente não refletem a realidade. É preciso que o governo assuma as rédeas e faça o que tem que ser feito para mudar a situação, não apenas no discurso.
 
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