Déficit à vista


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O título que escolhi para este texto pode levar a uma interpretação errônea, mas é isso mesmo. Parece com o grito do marinheiro da frota cabralina ao avistar terras lá na Bahia. O déficit nas contas públicas brasileiras é real e foi confirmada pela Secretaria do Tesouro do Ministério da Fazenda, assim como as terras de Santa Cruz. Com a divulgação dos resultados das contas fiscais dos últimos nove meses, o déficit se escancarou. Não é para menos. Com a indústria encolhendo e a economia paralisada, é natural que a arrecadação padeça dos mesmos males. Não há ‘pedalada’ ou contabilidade criativa que faça milagres.
 
Em setembro passado, os resultados anunciados das contas do governo central indicaram déficit da ordem de R$ 20,4 bi, o maior desde 1997, quando os levantamentos dessa natureza começaram. O saldo negativo acumulado (déficit primário) daquele mês chegou a R$ 15,7 bi, contrariando resultados de agosto que mostravam superávit. Manobras contábeis e financeiras, dentre as quais as tais ‘pedaladas fiscais’ — atrasar o repasse de recursos a bancos em pagamento de despesas sociais e previdenciárias, feitas pela Secretaria do Tesouro — não foram capazes de impedir a eclosão do mau resultado.
 
Para chegar onde chegaram essa contas — inclusive, ameaçam a posição brasileira nos ratings das agências internacionais de classificação de risco, retirando-nos o chamado ‘grau de investimento’ —, três fatores foram fundamentais: o pífio crescimento da economia (a última previsão fala em 0,3%!) que, obviamente, reduziu a arrecadação tributária; as desonerações fiscais (pensadas para fazer a economia crescer, mas que não resultaram naquilo que se esperava) e no crescimento desordenado das despesas correntes. Neste ano, ao que tudo indica, a meta fiscal não será atingida. Face aos ajustes que deverão ser feitos na economia, em 2015 também não. Pobre economia brasileira.
 
Vicente P. Oliveira
Economista — FEA/USP

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