No final da campanha eleitoral, ainda no primeiro turno, diante das denúncias crescentes sobre o esquema de corrupção na Petrobras, a presidente (então candidata à reeleição) Dilma Rousseff (PT) passou a se dizer intransigente no combate aos desvios de dinheiro de entes públicos que atacam sem qualquer pudor. No segundo turno, manteve a estratégia, afirmando que em seu governo iria fazer tudo para combater a corrupção, colocando corruptos e corruptores na cadeia. Porém, um movimento que vem sendo articulado no Palácio do Planalto, ainda na semana onde foi confirmada a reeleição da presidente, mostra que as ações são bem diferentes dos discursos.
Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, publicada ontem, o governo trabalha para emplacar um aliado na vaga do ministro José Jorge, do TCU (Tribunal de Contas da União), que se aposenta no próximo dia 18, ao completar 70 anos. A indicação de um substituto de perfil amigável — José Jorge veio da oposição, é considerado enérgico e tem sido uma pedra no sapato do governo — é considerada estratégica pelo Planalto, pois o novo ocupante da cadeira herdará a relatoria dos processos de investigação da Petrobras, entre eles o que avalia prejuízos na compra da refinaria de Pasadena (EUA). A apuração sobre Pasadena tem potencial para causar mais danos políticos à presidente Dilma Rousseff — que presidia o Conselho de Administração da Petrobras na época da aquisição, iniciada em 2006.
A presidente está no seu direito. Mas, como chefe da Nação, não pode contrariar o próprio discurso. Aliás, ao contrário do que ela afirmou durante toda a campanha, a primeira medida de impacto dias após ser reeleita foi tomada pelo Copom (Conselho de Política Monetária do Banco Central), elevando a taxa Selic, que baliza juros e influencia toda a economia brasileira. Ela havia prometido que combateria a inflação ‘sem tréguas’, mas em várias situações, na propaganda eleitoral e nos debates, condenava o aumento do juro para controlar os índices inflacionários. Não foi o que ocorreu.
O que mais Dilma vai fazer para contrariar o discurso de campanha? O caso do TCU é bastante emblemático, uma vez que, ao contrário do que sempre afirmou, o Planalto pretende influir nas decisões dos órgãos de controle, como já está conseguindo junto ao STF (Supremo Tribunal Federal), onde a maioria dos ministros foi indicada por Dilma e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e algumas decisões recentes causaram estranheza em especialistas. Por isso, assim como a Polícia Federal, órgãos como TCU não podem ficar à mercê dos interesses daqueles aos quais investiga.
As apurações sobre a compra superfaturada da refinaria de Pasadena, o sobrepreço da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o pagamento de propinas desviadas da Petrobras a parlamentares da base aliada, precisam ser investigados e apurados com isenção e responsabilidade. Do contrário, estes crimes continuarão a ser perpetrados contra o patrimônio de todos os brasileiros, desviando dinheiro que poderia estar beneficiando milhões de pessoas.
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