Um bolo grande de chocolate decorado com morangos e várias garrafas de refrigerante indicavam que a tarde de sexta-feira seria de festa no nº 3344 da avenida Hélio Palermo, na região central da cidade. Os convidados, um grupo de uns 25 homens e quatro mulheres, conversavam animadamente. Não demorou para que o Parabéns fosse cantado. Em poucos minutos, o bolo foi picado em pedaços e distribuído aos interessados organizados em uma fila indiana.
No último dia do mês, comemoram-se os aniversários dos frequentadores do Centro Pop (Centro Especializado para População em Situação de Rua), que também aniversariou recentemente. Completou um ano de funcionamento no dia 11 de setembro. Em que pese o bolo, não há motivos para grandes festejos. Pelo menos não para os moradores do entorno do Centro. Desde sua inauguração, o local é alvo de reclamações e críticas dos vizinhos. Eles se sentem intimidados com a postura dos atendidos e o receio não é infundado. Há motivos suficientes para o medo. Vários dos frequentadores já se viram envolvidos em ocorrências policiais, algumas sérias. A mais recente aconteceu na semana retrasada. O morador de rua Douglas Rodrigues, 31, foi morto a facadas por outros dois moradores de rua em uma praça da Vila Monteiro. Uma discussão motivada por pinga seria um dos motivos do crime. Todos frequentavam o Centro Pop.
Foi o estopim para o retorno de uma enxurrada de reclamações feitas por moradores e comerciantes próximos ao local. Para eles, a permanência do Centro Pop no local em que está trouxe para a porta de suas casas uma violência da qual todos querem fugir. E com razão. Muitos tiveram de mudar seus hábitos, raramente saem para andar a pé pelo bairro ainda que seja para ir a uma padaria ou supermercado. A praça onde ocorreu o homicídio já não é mais ponto de encontro dos moradores e crianças. As famílias também investiram em equipamentos de segurança e precisam ter muita paciência para lidar com as constantes abordagens em casa, no carro ou mesmo na rua. “Minha mãe e minha avó têm medo de sair de casa e levar nossa cadela para passear”, disse Leonardo Corrêa, 22, morador da rua vizinha ao Centro Pop.
Na tarde da sexta-feira, a secretária municipal de Ação Social, Gislaine Peres, recebeu o Comércio no Centro Pop e falou sobre as queixas. Defendeu o trabalho desenvolvido no local e apresentou um balanço dos resultados alcançados nestes 13 meses. “Acho natural que as pessoas se sintam incomodadas com o Centro. Ninguém quer um perto de casa. Mas os moradores de rua existem, estão aqui. Representam uma questão social que precisa ser enfrentada. Então, eu pergunto: o que vamos fazer com eles? Jogá-los para debaixo do tapete ou tratá-los?”.
A resposta não é simples. Mas o fato é que os moradores da região próxima ao Centro Pop não consideram justo que tenham que ser eles a arcarem com o ônus desse problema social. A maioria dos vizinhos não é contra o tratamento, mas questiona as razões pelas quais ele é oferecido em um bairro residencial e na região central da cidade. “Escolhemos esse local porque é no centro que os moradores estão. Aqui eles têm acesso fácil”, disse a secretária de Ação Social. Para os moradores, enquanto a escolha do endereço foi feita para facilitar a vida do grupo de frequentadores, criou um problema para o grande número de famílias da região.
Sobre o fato de instalar o Centro em regiões afastadas e oferecer transporte aos moradores, Gislaine disse que não há verbas e que muitos desistiriam. “O Centro acabaria esvaziado. Não é essa a nossa intenção. Temos que buscar soluções para o problema porque, seja no Centro ou na periferia, sempre haverá reclamações.”
Desde que as queixas começaram, a secretária disse que tem tentado conscientizar os moradores de rua para que não perturbem os vizinhos e para que não pratiquem a mendicância. “Todos os dias, temos três sessões coletivas em que trabalhamos essas questões. Mas é complicado. A mudança não ocorrerá da noite para o dia. Estamos lidando com pessoas que perderam tudo na vida, até as noções de convívio social. Temos que reeducá-las. É um processo lento.”
Para Gislaine Peres, a única forma de diminuir as reclamações é o dialogo e a informação. “Queria muito pedir um pouco mais de tolerância para a população. É um tema espinhoso. Mas temos que enfrentar e discutir”, disse a secretária. Diante do apelo, os moradores se mostram inconformados. “Sabemos que eles precisam de ajuda, mas é exigir um pouco demais que a gente, que trabalha o dia inteiro, tem um monte de responsabilidades e problemas, chegue em casa e ainda tenha que exercitar a paciência”, disse uma educadora que mora na mesma rua do Centro Pop.
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