Filho de uma família evangélica, Ednei Souza Santos, 45, nasceu e cresceu dentro da Igreja Assembleia de Deus. O pai era pastor e construtor de templos e vivia peregrinando por diferentes cidades. Como morou muitas vezes nos fundos das igrejas e acompanhava os pais nos cultos, começou a tomar gosto por esse universo e costumava brincar de ser pastor.
Em uma dessas andanças, um episódio abalou a família de Ednei. Seu pai se envolveu com uma fiel da igreja, abandonou o mistério, a mulher e os filhos e foi embora. A separação dos pais foi dolorosa.
Com oito filhos e sozinha, a mãe dele teve que trabalhar e precisou contar com a ajuda da igreja e a solidariedade de conhecidos para não passar fome. Ele e os irmãos ganharam responsabilidades e em busca de emprego chegaram à cidade de Franca. Aqui, Ednei conseguiu trabalho em uma fábrica, trouxe a mãe e os outros irmãos para fixar residência, começou a namorar, casou-se e decidiu que queria tomar um rumo diferente. Embora continuasse a seguir a religião, foi categórico com a mulher ao dizer que pelo seu histórico não gostaria de depender da Igreja.
Ao deixar de ser sapateiro, arrumou emprego de representante comercial de uma conceituada editora, mudou de cidade e diz que “acumulou fortuna”. “Comprei casa, carros, terreno, fiz poupança, mas ao mesmo tempo sentia que não era feliz.” Com um sentimento de vazio, decidiu sair do emprego e voltar para Franca.
Quando retornou, disse que sem explicação perdeu tudo o que havia conquistado e, mesmo não querendo, precisou voltar a depender da Igreja. Para completar, a mulher que quando esteve fora sofreu dois abortos espontâneos, ficou grávida novamente e dessa vez conseguiu chegar até o final da gravidez. “Tudo isso foi um sinal, de que eu precisava ter fé e que só seria feliz se dependesse da Igreja. Ela estava no meu sangue.”
Apesar da carreira promissora nos negócios, Ednei resolveu que a partir daquele momento deixaria de trabalhar para servir a Deus e ser pastor em tempo integral. Atualmente responsável pela Assembleia de Deus do bairro City Petrópolis, pastor Ednei não se arrepende da decisão.
O senhor é baiano, mas cresceu e foi criado na Grande São Paulo. Como foi essa mudança?
Nasci em Itamaraju, no sul da Bahia em 1969. Fiquei até os três anos na Bahia, depois meus pais mudaram para a Baixada Santista. Meu pai já era pastor e nós ficamos por um período por lá. Quando tinha 10 anos de idade, fomos para São Paulo. Passei a minha infância e parte da minha adolescência na Grande São Paulo. Meu pai pastoreou várias igrejas lá e nós acompanhamos. Somos uma família de oito filhos. São cinco homens e três mulheres. Além de pastor, meu pai era construtor e trabalhava erguendo templos. A gente ficava um ano e pouco em cada igreja e depois mudava.
Foi aí que surgiu sua vocação?
Acho que começou desde pequeno. Cantava na igreja e exatamente nesse período a gente brincava de fazer cultinhos em casa. Reunia os irmãos e de forma intuitiva falava que eu seria o pastor e iria dirigir o culto. Um irmão era do canto, o outro dava uma palavra e aí fazíamos essa brincadeira saudável. Com isso foi me despertando a vocação.
Como ocorreu a separação de seus pais?
Em 1982 fomos morar em Araçatuba e foi quando ocorreu esse fato lamentável. Meu pai, mesmo líder e pastor na igreja, se embaraçou e o casamento dele com a minha mãe acabou desfeito. Foi um momento difícil, todos nós ainda éramos menores e minha mãe teve que trabalhar, se desdobrar para poder dar conta de todos. Antes, ela só acompanhava meu pai. A gente não tinha casa própria, pois sempre moramos nos fundos de onde eram as igrejas. Infelizmente meu pai conheceu uma pessoa na igreja e se envolveu com ela. Minha mãe perdoou, pediu para ele ficar, para não ir embora, mas ele estava decidido e muito influenciado pela outra mulher preferiu ir.
O senhor sentiu raiva? Parou de frequentar a igreja?
Por um ano e meio, após meu pai sair de casa, teve uma instabilidade na família. Ficamos revoltados, de certa forma não entendíamos isso. Como um pastor e pai deixa a família e vai embora? Nós paramos de frequentar a igreja. Só minha mãe ficou firme, não deixou de ir e nós começamos a receber ajuda da igreja, a ganhar cesta básica. Em muitos dias não tinha comida. Minha mãe fazia fubá com sal e dava para os filhos. Foi muito difícil, mas superamos. Todo mundo casou e dos meus irmãos apenas um não está na igreja, mas é bem casado. Ele não conseguiu assimilar a situação, sofre certa revolta e não firmou na igreja. Minha mãe tinha 39 anos quando ficou sozinha e continua até hoje. Desde então ela não quis se envolver com mais ninguém.
Como conheceu Franca?
Em 1989, estava com praticamente 20 anos e ouvi falar de Franca porque trabalhava com calçados em Birigui. Lá não estava tendo muito trabalho e resolvi pedir para minha mãe deixar vir conhecer Franca. Peguei meu irmão mais novo que eu, que estava desempregado, e nós viajamos para cá em busca de trabalho. Nos hospedamos em uma pensão e depois de três dias conseguimos arrumar emprego na Samello.
E a relação com a igreja?
Chegando a Franca, conheci o pastor Edson de Oliveira, que era o pastor presidente da Assembleia. Ele me acolheu juntamente com o pastor Eurípedes Barsanulfo, de saudosa memória. Percebemos que o mercado de trabalho aqui era melhor, resolvi trazer toda a família. Aqui recomeçamos nossa vida. Fui acolhido e comecei a congregar na Vila Santa Cruz, pastoreado pelo pastor André que me deu as primeiras oportunidades na igreja. Cheguei em maio de 1989.Me casei em 1993 e desde então venho desenvolvendo trabalhos na igreja. Meu ministério foi reconhecido aqui e era um desejo grande. Quem tem espírito de líder já nasce com ele. Se destaca na sala de aula, no trabalho. Sentia isso e quis me apresentar, antes tentei fugir, confesso, mas a igreja estava no sangue.
Em determinado momento, o senhor não quis ser pastor?
Quando me casei falei algo para minha mulher e hoje sofro a consequência disso. Disse que queria trabalhar, construir meu futuro financeiro. Parei de trabalhar com calçados, passei a vender livro e mudei para Juiz de Fora. Fique lá três anos, houve uma interrupção na minha vida em Franca nesse período. Disse que queria ganhar, construir e não depender de igreja. Porque quando meu pai pastoreava, sofria muito. Hoje a igreja reconhece melhor o pastor, mas na época era difícil e nós passamos muita dificuldade. Disse para minha mulher que não queria depender de igreja, só que essa frase custou um pouco caro para mim.
O que fez o senhor voltar para Franca?
Estava bem financeiramente em Minas, mas não me sentia bem, não estava feliz, faltava alguma coisa, pois não estava envolvido com a igreja. Desisti de tudo e voltei para Franca. Aqui tinha algo que ainda não havia feito no sentido espiritual. A Igreja falou mais forte e quando me afastei do meu trabalho e cheguei de volta, em pouco tempo perdi tudo, casa, carros, terreno e um dinheiro que havia guardado. Aconteceu que precisei depender da igreja e aprendi que quem está na liderança, no ministério, deve depender de Deus.
Diferente de padres, os pastores são casados. É uma exigência da igreja para ser pastor?
Sim, para ser pastor é necessário ser casado. O homem solteiro pode trabalhar como líder, como obreiro. Dependendo do ministério, um homem solteiro pode ser consagrado como evangelista. Na Bíblia, existe uma orientação sobre isso, do apóstolo Paulo. Ele era solteiro e por escolha própria. Existe uma passagem em que ele diz ‘bom seria se todos fossem como eu, solteiro, mas por causa da prostituição, que se case. Melhor o homem casar do que abrasar’. Ele aconselha o casamento, porque o homem não consegue viver longe da mulher. Do tocante ao ministério pastoral, a orientação é a seguinte ‘o pastor, o bispo, seja marido de uma só mulher’. Quando ele fala isso, sugere que o pastor deve se casar. Claro, a questão do celibato, que a Igreja Católica defende, que o padre permaneça solteiro, nós não criticamos. Não é pecado. É uma decisão dela.
O senhor é pastor em tempo integral e está no City Petrópolis. Como é esse trabalho?
A igreja atua no cuidado das pessoas, daquelas que decidem ter uma vida perto de Deus. Trabalhamos na área de evangelização, para a pessoa se voltar para Deus e realizamos um trabalho social, que não é tão difundido, pois não é do nosso interesse. Trabalhamos na recuperação de jovens para tirá-los das drogas e do alcoolismo, inclusive a Assembleia de Deus, Ministério Missão (com sede na rua General Osório) mantém uma pessoa para coordenar esse trabalho, visitamos enfermos e ajudamos famílias com dificuldades.
Existe um crescimento no número de fiéis nas igrejas?
Sim, as pessoas estão procurando mais a Deus, sentindo essa carência. Elas estão vendo que o dinheiro, a fama não são suficientes para preencher o vazio que elas sentem. Temos mais de cem famílias participando na nossa igreja. Quando cheguei, esse número era menor. Houve um crescimento e como um todo, não só aqui. Hoje, a Assembléia ao todo tem cerca de 12 mil membros, só no City Petrópolis são 350 membros.
Além do aumento de fiéis, cresceu o número de igrejas. Como o senhor vê essa expansão?
Houve crescimento de igreja, de ministérios, porque além das 54 igrejas ligadas à Missão, existem outras, fora as igrejas adicionais que é Quadrangular, Batista. Existem as que proliferaram, que são Assembleia de Deus também, mas com ramificações. A Assembleia de Deus no Brasil infelizmente não se preocupou em patentear o nome. Então quando algum membro está insatisfeito e decide montar uma igreja e colocar o nome de Assembleia de Deus, Ministério X, não existe impedimento.
Ter igreja virou um negócio?
Não. Acredito que muitos líderes confundem o que é igreja. Igreja é uma porta que Deus abriu para você trabalhar na recuperação de pessoas e levá-las a se aproximarem Dele. Tem surgido muitas igrejas pelo fato das pessoas de modo errôneo acharem que é uma facilidade para ganhar dinheiro e não é. Tanto que essas igrejas, abertas com esse objetivo, não permanecem. Ficam um período abertas e não têm permanência em um lugar. O trabalho quando é sério, ele permanece. Igreja não é negócio.
Mas por que do aumento do número de novas igrejas?
Aumentou por causa da ganância das pessoas. Pessoas que não aceitam ser subordinadas, que não gostam de ser lideradas. Pelo meu histórico de vida, procurei sempre estar subordinado. Tenho o meu pastor que me orienta, rege o meu ministério. Estou hoje no City Petrópolis, mas se ele disser que precisa de mim em outro lugar, tenho submissão de aceitar. Tem pessoas que se o pastor falar isso, ele se revolta, sai e abre outra igreja e algumas pessoas vão junto. Alguns são sérios, mas existe também muito interesse pessoal. A gente não pode proibir, coibir, isso vai da mente de cada um.
Qual a posição da Assembleia de Deus diante do homossexualismo? Aceita casamento gay?
A igreja tem uma postura em relação ao homossexualismo. Nós não somos contra o homossexual, é a opção da pessoa e todos têm direito de escolha. Ele é aceito normalmente na igreja, estamos de portas abertas. A igreja é contra a prática do homossexualismo, ela é condenada por Deus. Temos que pregar a família constituída por homem, mulher e filho. Não tem como formar família com dois homens ou duas mulheres. Contra o homossexual não temos nada, ele pode frequentar a igreja, participar do culto, só não pode assumir funções. Até pessoas que vivem amasiadas, precisam se casar para participar da comunhão da igreja.
E sobre o aborto?
A igreja também é contrária. Vemos que é um atentado contra a vida, pois no aborto está ocorrendo a interrupção de uma vida.
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