O país não ficou dividido, com andam dizendo. É pior. Está fraturado, despedaçado, sem rumo. Saiu das eleições do segundo turno sem governo de consenso, sem estadistas capazes de juntar cacos. O desafio dos próximos quatro anos será enorme. A comprovação, quase matemática, está números que acabo de reunir para meus leitores.
Foram às urnas no último 26 de outubro, 142.815.046 de brasileiros aptos a votar. Desses, 54.501.118 escolheram Dilma; 51.041.155, Aécio. A conta não fecha? Não fecha. Faltam 37.279.085 de eleitores! O que eles fizeram? Simples: não foram votar, ou votaram branco, ou nulo. Sem emoções partidárias ou falsos pudores, aqui estão percentuais que comprovam a falta de rumo: Dilma foi reeleita com 38,16% de aceitação e 61,84 de rejeição; Aécio teve 35,73% de aceitação e 64,27% de rejeição. Os que se decidiram por não escolher nem um, nem outro, foram 26,11%!
Na véspera do dia 26, votação do segundo turno, apontei aqui que havia ‘nas ruas, misto de rejeição e desconfiança em Aécio e Dilma’. Chamei de ‘abstêmios’ esses que, sabia, não iriam votar, ou votariam branco ou nulo, porque fenômenos sociais se repetem. Tinha acabado de acontecer em Franca, eleição do primeiro turno: 1/3 dos aptos a votar a deputado federal não foram as urnas, ou votaram em candidatos de fora, ou votaram branco ou nulo. A cidade ‘passou’ como ‘amostra social’: 37,2 milhões de eleitores deram solene ‘não’ a Aécio e Dilma no país. Percebam: deram ‘não’ a ambos, não a um só, especialmente!
É população maior que as de muitos países. Quem são esses? Onde estão? O que fazem? O que pensam? Por que agem assim? Arrisco-me, mas logo penso em jovens completamente drogados por redes sociais, que não pensam em nada além das redes sociais; homens e mulheres sem cultura, incapazes de buscar informações relevantes para tornarem-se determinantes em seus grupos sociais; gente calejada pela descrença no outro; indivíduos paralisados por preguiça ou ignorância; eleitores cansados da ‘obrigação de votar’; trabalhadores de sol a sol traídos por leis que não os protegem, e sim a criminosos. São, também, os conscientes sobre projetos sociais que paternalizam quem não produz e o torna credor de contas pagas com votos; e aqueles que por falha de caráter, tornaram-se tolerantes à corrupção e à falta de ética que grassa por ai porque descobrem que sempre é possível se dar bem, já que tantos se dão bem e nunca se lhes acontece nada.
O Brasil tem fraturas, e algumas se tornaram expostas no segundo turno: há o país do Norte e Nordeste onde estão (segundo estatísticas disponíveis no site do TCU - Tribunal de Contas da União) multidões beneficiadas pelo Bolsa-Família, hoje já chamado de ‘País de Dilma’; há o país do Centro-Oeste, Sudeste e Sul, já chamado de ‘País de Aécio’, cansado de, como afirma ‘pagar para prospere quem nada produz no País do Norte’; e há o país dos descontentes, ou silenciosos, ou gozadores, e, pior, dos que pensam que ‘nada pode ficar pior do que já está’.
Nós que votamos de nossas crenças por um Brasil unificado, melhor para todos, temos que estar alertas. Tem que ser assim com Dilma, teria que ser assim com Aécio vencedor. São políticos profissionais, cada um achando que seus propósitos são certos e incontestáveis, apoiados por mais políticos que também se julgam deuses. Um Brasil tripartido os contestou veementemente na eleição que acaba de terminar. Temos que lembrá-los disso, vigiá-los, cobrá-los, importuná-los. Temos que ser reconquistados!
PS: No lugar do título desta coluna está um QR, link para entrevista importante que julgo importante que o maior número de pessoas veja. Direcione seu celular com programa de leitura ao QR, assista, espante-se, mas reequilibre-se. Pense com sua própria cabeça e faça diferença se julgar que é o caso...
Luiz Neto
jornalista, editor de Opinião - luizneto@comerciodafranca.com.br
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