Talvez fosse a criatura mais meiga dentre as criaturas populares que perambulavam pelas ruas de Franca na última década de 50. Havia a Maria Capotinha, o Geraldo Pelotão, o Geraldo Vingador, o Meia-Lua, a Luiza (safada!), Sissiá, que não perdia um só jogo da Francana no velho estádio do Nhô Chico. Mas toinzim era diferente.
Toinzim dá-um-pulim era uma amável criança muda, embora a população assegurasse ter ele mais de oitenta anos de idade. Miúdo, com um surrado paletó maior que o figurino, calças de algodão largas e curtas, descalço como um escravo... E chapéu de abas caídas.
Ninguém sabe explicar até hoje o porquê, mas esse homenzinho vivia cercado de passarinhos de rua.
A criançada gritava:
- Toinzim, dá-um-pulim!
O homenzinho troncudo tirava o chapéu, trazia-o delicadamente ao peito e dava um saltinho no ar. No outro quarteirão, era a mesma coisa. E a vida seguia seu rumo.
- Toinzim, beija o poste!
A criatura repetia o gentil gesto do chapéu e beijava o poste mais próximo, como se o fizesse a uma dama. E a vida seguia seu rumo.
Até que:
- Toinzim, dá três pulim!
Toinzim deu seu primeiro pulinho.
A meninada ria divertida.
Toinzim deu seu segundo pulinho.
Súbito, todos ficaram mudos.
No terceiro, ele deu um impulso tão forte, mas tão forte que foi parar direto no colo de Deus.
Everton de Paula, acadêmico e editor. Escreve para o Comércio há 43 anos
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