A relatividade do espaço e do tempo


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Olhando uma foto antiga, de quando eu meus irmãos e primos éramos pequenos, minha tia ficou pensativa, por alguns instantes, depois reclamou que sentia muita saudade daquele tempo. Era uma fotografia de todos nós, um grupo de crianças, sentadas no chão em torno dela numa pequena sala de sua casa. Provavelmente foi tirada por meu tio, que já faleceu há alguns anos. “Vocês davam um trabalho danado, mas eram uns doces de crianças, declarou num suspiro”. E esse seu gesto espontâneo me fez recordar de quando nos reuníamos na casa dela. Para nós, só o fato de nos reunirmos já era uma festa. E ela fazia bolos maravilhosos e nos contava histórias interessantes que ainda hoje me influenciam. Fiquei um pouco condoído e, para consolá-la lembrei-a de que ainda estamos todos por aí e que vez ou outra “aparecemos”. Mas ela retrucou: “quase todos vêm aqui, mas como beija-flores: dão um beijo no meu rosto, ficam por alguns minutos e saem voando para cuidar da vida”. Eu ainda insisti que de vez em quando, em algum aniversário nós nos reunimos, pelo menos a maioria de nós... E ela cabisbaixa disse que isso não é a mesma coisa. “Naquele tempo conversávamos todos nós. Hoje, praticamente não temos de que falar. As coisas mudaram demais e eu não tenho mais coisas interessantes pra contar. Vocês sim, e ficam por aí, conversando entre si, com as esposas ou namoradas, mas é como se não estivessem... Para mim falta alguma coisa. O tempo e o clima não são os mesmos. Mas, alguns de vocês nunca vêm aqui. Moram longe demais. Mas não é por isso”. E então ela concluiu: “eu entendo tudo isso. Não reclamo. A vida é assim. Você verá. Cada fase é única. Cada momento é único. Por isso aproveite-os. Mas não queira perpetuá-los. Isso não é possível. Procure ir em frente. A gente vai mudando de papel pela vida. Chegamos como objeto de desejo de todos, cercados de cuidados. Passados alguns anos e vamos sendo liberados aos poucos. Depois, passamos a cuidar de outros. Por fim, voltamos a objetos de cuidados outra vez. Mas não é mais como no início. Na verdade, temos saudade do tempo em que ocupávamos maior espaço na vida... Saudade que nem mesmo as reuniões de família conseguem aplacar. Talvez seja por isso que com o passar do tempo tenho a sensação de estar ficando invisível aos poucos...” A esta altura eu já não conseguia falar, com os olhos marejados. Mas falei com os meninos daquela fotografia e, com alguma regularidade, já não mais em grupo, voltamos a ouvir velhas histórias de minha tia, vez ou outra acompanhadas de café com bolo que levamos. Ela anda um pouco mais feliz
 
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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