Dante, o joalheiro, era um homem de fino trato: educado, gentil, atencioso, enfim, um cavalheiro. Alto, corpo de atleta, elegante, tinha, no entanto, um rosto horroroso. Quando sorria, as maçãs da face mais pareciam dois caroços ladeando um nariz de batata. Seus olhos eram pequenos e inexpressivos. Seus dentes, minúsculos e separados. Sua cabeça tinha o formato de um melão. Sério ou sorrindo, Dante era muito feio, feio de doer. Ao vê-lo, a primeira impressão era de espanto, repulsa ou medo. Porém, ao entabular com ele uma conversação, o interlocutor poderia apreciar as suas qualidades e, aos poucos, a sua feiúra ia desaparecendo.
Meu tio Zuta ( que Deus o tenha! ) era um turquinho desengonçado: baixinho, magrinho, cabelinho de fogo, traços inexpressivos e, para completar, faltava-le ainda parte de um dedo, decepado num acidente. No entanto, tinha um olhar ( não os olhos! ) muito bonito: um olhar de gente boa e atenciosa. E assim ele era: um homem bom e atencioso. Era um dos meus tios preferidos. Sabia conversar e dar conselhos. Tinha sensibilidade, calor humano, amor no coração. Eu não o achava feio. Aprendi a vê-lo por dentro e vendo-o desta maneira, a sua beleza interior sobrepujava o seu aspecto físico.
O feio é um isolado, um abandonado e até rechaçado. É o mais excluído dos excluídos. Não tem sequer uma associação para defendê-lo. O feio é um solitário. Não é articulado, não se organiza como os homosexuais, os afrodescendentes, os índios, os deficientes. Não aparece nos programas de televisão, a não ser nos humorísticos. Não serve para capas de revistas ou campanhas publicitárias. O feio é um desprezado.
Dizem que quem ama o feio, bonito lhe parece. Mas, quem pode amá-lo? Quem pode apreciar uma boca torta, um nariz de tucano, uma orelha de abano, uma epiderme manchada? A feiúra afasta as pessoas. Somente os cegos podem conviver com a feiúra e, sem preconceito ou repulsa, encontrar a beleza escondida dentro de um corpo desajeitado. Porém, se a voz do infeliz for rouquenha, estridente, dissonante, nem os cegos darão jeito.
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
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