Reportagem de Joelma Ospedal, editora-chefe e
Adriano Pereira, da redação
Cadê a festa de inauguração? Onde está o acervo que Regina Duarte cedeu para Franca? Estas são apenas duas das muitas perguntas que vêem à mente quando o assunto é a Casa da Cultura e do Artista Francano. A obra, que custou R$ 3 milhões aos cofres públicos e cuja concepção foi desenvolvida especialmente para abrigar os objetos da atriz francana, acabou relegada a uma irrelevância silenciosa, tal e qual a abertura para o público, em junho desse ano.
Não é difícil imaginar que muitos passem em frente ao prédio, ali entre as ruas Monsenhor Rosa e Dr. Alcindo Ribeiro Conrado, no Centro da cidade, sem saber direito do que se trata o espaço, em que pese a placa na fachada. A Casa mereceria um belo evento de inauguração, uma programação especial de visitação, um espaço específico para abrigar rico acervo televisivo e até a presença da convidada de honra, a própria Regina Duarte. Tudo isso jamais aconteceu. Virou poeira. Uma poeira incômoda, que tira o brilho do espaço cultural, mais ainda se considerando que a justificativa para desapropriar o imóvel e liberar a verba para a nova construção foi o acervo de Regina Duarte. Franca não o receberá mais.
Um projeto de lei apresentado pelo ex-vereador Vanderlei Tristão, no começo de 2012, ajuda a explicar esse desfecho frustrante para a Casa do Artista. A lei 7.651 dava o nome de Abdias do Nascimento, ex-senador nascido em Franca e morto em 2011, à Casa da Cultura e do Artista Francano. A proposta foi considerada surpreendente porque, inicialmente, a casa não receberia um nome específico e, como foi criado para abrigar o acervo de Regina Duarte, soaria estranho um nome que não fosse o dela. Em que pese a aparente dissonância, o projeto de Tristão foi aprovado, no dia 17 de abril de 2012, por foi 11 votos a zero. O presidente Valter Gomes só votaria em caso de desempate. Não votaram Jépy Pereira, Graciela Ambrósio e Marco Garcia. Portanto, ninguém foi contra o batismo com o nome de “Abdias”. Mais surpreendente ainda foi o então prefeito Sidnei Rocha sancionar quase que imediatamente a lei. Justamente ele que ajudou a consolidar o tal espaço cultural e que tinha uma postura tão crítica em relação às ações da Câmara, acatou sem reclamar a decisão dos vereadores. O fato é que a data de sanção da lei, 24 de abril de 2012, marca a morte do projeto de Regina Duarte.
A ideia de criar naquele endereço um acervo foi da própria Regina Duarte. Depois de visita a Franca e de rever a casa onde morou desde o nascimento, em 1947, até os 3 anos, Regina imaginou que o local poderia abrigar sua coleção de itens artísticos. Ela se empenhou pessoalmente em ver concretizado o projeto. Pouco depois de concebê-lo, conversou com o então governador José Serra, em 2009, para tratar do assunto. Serra pediu a Sidnei Rocha, prefeito de Franca à época, para desapropriar os imóveis e entrou com a verba de quase R$ 3 milhões (suficientes para construir duas creches) para a obra de 1,4 mil metros quadrados. Em meados de 2012 foi finalizada a licitação que escolheu a empresa responsável pela obra. Depois de adiamentos que atrasaram a entrega do centro cultural em mais de um ano (veja em quadro nesta página), finalmente a Casa ficou pronta, em maio desse ano, e a inauguração parecia depender apenas da agenda de Regina Duarte e do governador de São Paulo.
Polêmica
Mas a doação da atriz perdeu o sentido depois de aprovado o projeto de Tristão. “Foi uma bobagem que esse ex-vereador inventou”, disse recentemente o ex-prefeito Sidnei Rocha, em que pese o fato de ter sancionado a lei, quando poderia tê-la vetado. “Sancionei em respeito à Câmara”, tentou justificar. “Franca tem cabeças muito atrasadas ainda, por isso a cidade não cresce. Um memorial da Regina Duarte abrigaria um acervo inestimável, atrairia turistas, movimentaria o comércio, seria um atrativo para a cidade e por causa de pessoas atrasadas, isso se perdeu”.
Vanderlei Tristão defende sua iniciativa. “Se a Regina mudou de ideia de doar seu acervo por causa do nome de outra pessoa, ela está sendo incompreensível. É uma atitude muito radical, até porque o Abdias não é um nome qualquer”, disse ele (leia mais sobre Abdias do Nascimento em texto nesta página).
No último dia 18 de junho, a prefeitura, já sob a gestão de Alexandre Ferreira, inaugurou a Casa do Artista Francano “Abdias do Nascimento” sem festa, sem solenidade e sem o acervo de Regina Duarte. Nos cômodos destinados à memória da atriz há apenas painel com fotos de personagens que ela interpretou e algumas bonecas vestidas com réplicas de roupas que Regina usou em novelas. Mas, mesmo esse reduzido espaço estava fechado à visitação até o último dia 18 de outubro.
Com relação ao acervo de Regina Duarte, deve ser enviado para a Unicamp, em Campinas, cidade onde cresceu. Lá, segundo a assessoria de imprensa da atriz, houve interesse em homenagear essa que é das mais reconhecidas artistas brasileiras.
Em mais uma medida difícil de entender, na semana passada, no dia 22 de outubro, o vereador Adérmis Marini (PSDB) apresentou proposta em caráter de urgência e teve aprovado projeto de lei que autoriza a criação de um memorial para a atriz Regina Duarte. Não há especificação de local. O texto diz apenas que o município irá regulamentar, por decreto, a destinação do espaço. “Fiz o projeto para evitar que Franca perca o acervo acumulado de mais de 50 anos de carreira da atriz, que poderá ser levado para a Unicamp”, disse o vereador, no mínimo atrasado em sua iniciativa. A assessoria de imprensa da atriz, consultada na tarde de ontem, disse desconhecer o projeto de Adérmis.
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