Uma moradora da rua Dácio Fonseca Júnior, que não quis ter seu nome divulgado, só leva o filho de 6 anos à escola de carro, mesmo a instituição de ensino estando a poucos quarteirões de sua residência. A família do autônomo Leonardo Corrêa, 22, moradora da rua Jonas Alcântara Vilhena há mais de 30 anos, não passeia com a cadelinha da casa pelas vias do bairro. Um comerciante da rua Afonso Pena, que também pediu para manter sua identidade em sigilo, encontra com frequência moradores de rua dormindo na porta de sua loja. Segundo os moradores da Vila Monteiro, os fatos relatados passaram a ser corriqueiros há cerca de um ano, após a instalação do Centro Pop (Centro Especializado para População em Situação de Rua) no bairro. Para a secretária municipal de Ação Social, Gislaine Peres, as ocorrências que acontecem fora da instituição não são de responsabilidade da pasta.
O último fato envolvendo o Centro que deixou os vizinhos assustados foi o assassinato de um morador de rua, frequentador da instituição, na última quinta-feira, 24. Douglas Francisco Rodrigues, 31, foi morto a facadas por outros dois moradores de rua em uma praça da Vila Monteiro. Uma discussão motivada por pinga seria um dos motivos do crime. Segundo a secretária Gislaine Peres, o ocorrido não é de responsabilidade do executivo municipal. “O fato aconteceu fora do Centro Pop. Lá dentro, passamos orientação e damos assistência, mas não temos como responder pelo que acontece fora.”
Leonardo Corrêa disse que via com frequência a vítima pela região. “Ele era bonzinho, tranquilo, mas bebia. Ele vinha sempre pedir comida aqui em casa”, disse o autônomo que chegou a ver o início da confusão que acabou na morte de Douglas. “Faz umas três semanas que um pessoal montou um acampamento na pracinha. Cada dia ia juntando mais gente. Tinha tudo lá, colchão, fogão, sofá. No dia do assassinato, tinha umas dez pessoas. Vi uma confusão lá quando estava chegando em casa, mas como eles sempre fazem bagunça na praça, nem dei bola.”
Para Corrêa, o Centro Pop deveria ser instalado em outro local. “Não acho ruim que o serviço exista, mas não deveria ser em um bairro residencial no meio da cidade. Minha mãe e minha avó têm medo de sair de casa e levar nossa cadela para passear.”
Moradora há oito meses na Vila Monteiro, a mulher citada no início da reportagem está arrependida de ter se mudado para a região. Ela disse que seus filhos de 10 e 6 anos estão apavorados com o assassinato e não saem mais de casa. “Minha mãe e minha sogra também moram aqui pertinho, mas eles não têm coragem de ir na casa das avós a pé. Para ir para a escola, que é próxima daqui, também é só de carro. Os garis não limpam o meu quarteirão e o moradores de rua deixam muita sujeira na minha porta, fazem até xixi. Mudei faz pouco tempo, mas estou arrependida.”
Outro morador da rua Jonas Alcântara Vilhena, que pediu para ter sua identidade mantida em sigilo e que mora há 20 anos no local, também concorda com a mudança do Centro Pop. “Antes o bairro era tranquilo, agora a gente vê esses fatos (assassinato) acontecendo na porta da casa da gente. Não frequento mais a praça, principalmente quando tem grupinhos lá.”
Já o comerciante também citado no início da reportagem se incomoda com a abordagem que os frequentadores do Centro Pop fazem aos seus clientes. “Alguns acham ruim, porque eles ficam pedindo dinheiro. Eles também dormem na porta da loja e deixam muita sujeira aqui.”
Autoridades
O vereador Delegado Radaeli (PMDB) abordou o caso do assassinato do frequentador do Centro Pop quando subiu à tribuna da Câmara Municipal na sessão de ontem. Radaeli defendeu a manutenção do projeto, mas em formato diferente do atual. “Se a pessoa retorna continuamente no local, é porque não há resultados efetivos. Os imóveis daquela região se desvalorizaram e afetou também a segurança pública. É preciso pensar se os resultados efetivos valem a pena. Quantas pessoas já recuperadas tivemos no Centro Pop?”, questionou.
O vereador se comprometeu a enviar um requerimento à Secretaria de Ação Social solicitando informações sobre o projeto ainda na tarde de ontem. “Quero ser informado sobre a situação do Centro Pop e eles têm 15 dias para responder.”
A reportagem do Comércio questionou a secretária Gislaine Peres por e-mail, cujo recebimento foi confirmado, sobre a possível intenção da pasta de mudar o Centro Pop de lugar, além de uma posição sobre as considerações de Radaeli. Mas a secretária não retornou as mensagens até o fechamento desta edição.
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