Lívia Hernandes é uma alegre e bela mulher de 27 anos. Natural de Franca, mora há oito anos em Ribeirão Preto onde fez faculdade e hoje é doutoranda em farmácia, pela USP. Quem vê o sorriso em seu rosto e o brilho em seus olhos cor de mel só desconfia que Lívia passa por um tratamento contra um câncer na mama direita pelo lenço que ela usa na cabeça. A linda história dessa jovem abre hoje a série de reportagens que o Comércio publica até na próxima sexta-feira, 1º, sobre câncer, motivada pelo Outubro Rosa, mês marcado por ações de prevenção do câncer de mama.
No fim de maio, a estudante percebeu durante o banho que tinha um “carocinho” no seio direito. Diante do fato e motivada por familiares, Lívia procurou um mastologia, fez exames, e no dia 6 de junho recebeu o diagnóstico de câncer de mama.
“Quando ainda passava por exames, diante da suspeita de um câncer, li em um livro do Chico Xavier uma frase que dizia que ‘a prova, seja ela qual for, não vem para esmagar, mas para induzir a crescer. Está no próprio homem escolher ser abismo ou ponte’. No meu caso, eu escolhi ser ponte.”
Apesar de ser o décimo caso de câncer de mama em sua família, Lívia relata que ficou surpresa com o diagnóstico, especialmente por conta de sua idade precoce. Os familiares e amigos da garota também se sentiram perplexos diante da confirmação da doença. “Todos os casos na minha família são de mulheres que tinham pelo menos 35 anos. Ficamos muito abalados, principalmente meu pai que perdeu a mãe, minha avó, quando ele tinha 15 anos por câncer de mama.”
Quase um mês depois do diagnóstico, no dia 2 de julho, Lívia passou por uma mastectomia, que é a cirurgia para retirar a mama, além da extração de gânglios axilares da mesma região. A cirurgia e todo o tratamento está sendo realizado pelo SUS (Sistema Único de Saúde) no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. “Todos lá tratam os pacientes como pessoas, e não como mais um paciente.” No fim de agosto, a estudante iniciou um tratamento com oito sessões de quimioterapia que deve durar até janeiro de 2015. Posteriormente, Lívia deve passar ainda por 30 sessões de radioterapia e, por fim, por uma última cirurgia para reconstrução da mama.
Forte
“Claro que me preocupei com o meu cabelo. Segui mil recomendações para evitar a queda. Tomei chá disso, fiz aquilo, mas na primeira sessão de quimio já senti minha cabeça doendo e percebi que meu cabelo iria cair”, disse Lívia que mesmo antes de iniciar a quimioterapia cortou as longas madeixas e fez uma peruca com próprio cabelo. Com o início da queda dos fios, a estudante decidiu então fazer a Festa do Lenço, que foi semelhante a um chá de cozinha, mas os presentes não foram para a casa. “Convidei minha família e amigos para me visitar e trazer lenços de presente. Ganhei mais de 70. Até prefiro o lenço a usar peruca, pois esta incomoda e o lenço é mais estiloso.”
Ontem, Lívia fez a 2ª edição da Festa do Lenço, mas dessa vez os acessórios ganhados serão doados para a entidade Lencinho com Carinho, que coleta, customiza e doa lenços a mulheres que fazem tratamento contra o câncer.
Lívia também montou o blog “É câncer de mama! E agora?”, em agosto, e desde então vem relatando fatos de seu tratamento, dicas para outras mulheres que enfrentam a doença, dentre outros temas no espaço. “Como tenho muitos amigos que moram em outras cidades comecei a publicar sobre o meu tratamento para eles terem notícias minhas. Foi quando meu namorado, que é publicitário, me incentivou a montar um blog. Fiquei surpresa quando comecei a receber por lá diversas mensagens de mulheres que passam ou já passaram pelo tratamento. E acabou virando um espaço onde eu também troco experiências e recebo motivação.”
Um dos posts mais lidos no blog da Lívia é o intitulado “A melhor cantada da minha vida”, em que ela relata sua primeira experiência com a peruca. “Cabelos e seios são dois importantes símbolos da vaidade feminina e perder ambos em um curto espaço de tempo pode causar um grande impacto psicológico (...) Saí do salão de beleza, o vento bateu nas minhas lindas e novas madeixas (peruca) criando um movimento natural, e de repente, passam dois moços de bicicleta e gritam: ‘Ô lá em casa, que princesa hein!’. Naquele momento não pensava em outra coisa: ‘Funcionou! Eles nem perceberam que era peruca!’”, comenta Lívia no post.
Dentre festas, blog e tratamento, Lívia ainda arruma tempo para participar de palestras sobre o tema e fazer um trabalho social. Na semana passada, a estudante deu seu depoimento em um ciclo de palestras na Unesp de Franca. Lívia também estuda uma maneira de comercializar camisetas e chaveiros cuja renda será revertida para o Iansa (Instituição de Apoio Nossa Senhora Aparecida).
Desde o início de seu tratamento, Lívia tem sido auxiliada por um psicólogo. A estudante também busca apoio na família e na religião espírita para enfrentar o câncer. “Tenho meus momentos tristes, mas procuro encarar tudo com sorriso. Aprendi a meditar, me aproximei mais de Deus e me uni mais à minha família.”
Para a estudante existe uma Lívia antes e outra depois do câncer. “Renasci de pois do câncer. Aprendi que tenho que levar uma vida mais tranquila. Pensar mais em mim e em meu auto-amor.”
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