A sapateira Elilda Ferreira, 44, exerce a profissão há 30 anos. Apesar do longo tempo no ramo, ela não tem muito que comemorar neste dia 25 de outubro, data em que é celebrado o Dia do Sapateiro. Elilda trabalhava na mesma fábrica desde 2006, mas desde agosto está desempregada. A data que homenageia a categoria foi escolhida porque 25 de outubro também é o Dia de São Crispim, padroeiro dos sapateiros.
A situação de Elilda é parecida com a de muitos outros sapateiros francanos. Segundo dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), elaborado mensalmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o saldo no número de contratações menos a quantidade de demissões na indústria de Franca nos últimos 12 meses ficou negativo. Foram 2.864 desligamentos a mais do que admissões entre setembro deste ano e outubro de 2013.
O cenário do período entre setembro de 2013 e outubro de 2012 também apresenta saldo negativo entre contratações e demissões, mas a baixa não é tão grande quanto a de 2014. Foram apenas 25 desligamentos a mais do que admissões no período.
O marido de Elilda, Paulo César Ferreira, 45, também é sapateiro e, assim como ela, está sem emprego. Elilda conta que o casal tem sustentado a casa com seu seguro-desemprego e com o pagamento de “bicos” que Paulo tem feito. Apesar das dificuldades, o casal não pensa em abandonar a profissão. “Esse ano foi muito difícil, mas acredito que o ano que vem vai melhorar”, disse Elilda.
Já Roseli da Silva, 39, depois de trabalhar 10 anos como sapateira, foi demitida em agosto e não pretende voltar a exercer a profissão. “Por enquanto, estou parada recebendo o seguro-desemprego. Nunca tinha vivido um ano difícil como este para nós sapateiros, nunca tinha ficado sem emprego. Acredito que devo virar vendedora autônoma ou procurar alguma outra coisa”, disse.
O filho de Roseli, Luiz Felipe da Silva, 17, começou a trabalhar como sapateiro há três meses, mas o garoto não pretende seguir a profissão da mãe. “Está uma situação de insegurança. Meu filho mesmo começou a trabalhar, mas faz cursos na área administrativa para ver se sai do chão de fábrica.”
No lado oposto de Elilda e Roseli está o sapateiro Clemerson Simplicio, 37, que neste sábado pretende comemorar os 25 anos na profissão. Para ele, a tranquilidade do ofício é o que mais o agrada como sapateiro. “Não temos os melhores salários, mas o que eu ganho dá para sustentar minhas três filhas. Gosto do ambiente da fábrica e gosto muito da minha profissão.”
Apesar da satisfação com o trabalho, Clemerson reconhece as instabilidades da profissão. “Este ano foi crítico. Em junho ficamos parados oito dias e essa foi uma opção da empresa para não nos demitir. Mas agora estão contratando.”
Representantes
Tanto o Sindicato dos Sapateiros quanto o Sindifranca (Sindicato da Indústria de Calçados de Franca) reconhecem que as orações para São Crispim tiveram de aumentar em 2014. Mas ambas as entidades têm esperança de melhora no setor em 2015.
Para o presidente do Sindicato dos Sapateiros, Fábio Cândido, este ano não foi um período para a categoria comemorar. De acordo com Cândido, desde maio, a média de demissões que o Sindicato faz por dia é de 20. Em épocas boas para o setor, esse número não passa de três desligamentos diários. “O desemprego este ano superou anos anteriores. E o fim do ano também é uma tradicional época de demissões, pois não tem muito pedido. Vamos ver o que os governos eleitos vão fazer para a economia. Esperamos que ajudem o setor.”
Já José Carlos Brigagão, presidente do Sindifranca, está mais otimista que Cândido. “Apesar de um ano difícil para a indústria calçadista nacional, não podemos esquecer que na crise mundial de 2008, conseguimos superá-la e aumentar o emprego. E isso só foi possível com a união de empresa e trabalhador. Agora não é diferente, vamos juntos também conseguir superar este momento, temos que ter fé e garra para, mais uma vez, ultrapassar esta barreira”, disse Brigagão em nota sobre o Dia do Sapateiro.
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