“Meu maior sonho é jogar na Seleção Brasileira”. Este é o desejo alimentado pela ponteira Tamara Ábila. Com este pensamento, ela luta para vencer as dificuldades da verdadeira realidade do esporte no Brasil e, em particular, em Franca. Com apenas 15 anos, 1,88 metros e 70 quilos, a jogadora de vôlei da equipe de Franca vê a cada treino e confronto do Campeonato Paulista a distância do seu sonho diminuir. Tamara tem o biotipo adequado para equipes de alto rendimento. Altura, foça e velocidade em quadra fizeram despertar os olhares dos responsáveis pela Seleção Brasileira e Seleção Paulista Sub-17. Primeiro, chamou a atenção de Paulo Silveira, técnico da equipe local.
“Pela experiência que já tenho no voleibol, a encaro como um fenômeno por que ainda não completou um ano em competição e já está se saindo muito bem, não só no aspecto técnico, mas também no emocional. Apesar de ser muito nova, ela tem um controle de ansiedade acima da média. Isso chama a atenção. É uma jogadora audaciosa, extremamente competitiva, portanto, acredito que Franca será presenteada com uma grande atleta. Por isso, já estamos utilizado-a neste campeonato (Paulista Sub-19). Assim, ela é cada vez mais pressionada e exigida. E vem correspondendo”, afirmou o técnico Silveira.
Em apenas um ano de atuação em um campeonato exigente, Tamara já despertou olhares de dirigentes das seleções Paulista e Brasileira Infanto Juvenil. No mês passado, ela foi convidada a participar das seletivas da seleção estadual e concorrer a uma vaga para defender São Paulo no Campeonato Brasileiro de Seleções Sub-17 Infanto-Juvenil em novembro. Neste mês, a jogadora recebeu convite da Seleção Brasileira para disputar a Taça Paraná. Com a agenda deste ano fechada, o técnico francano foi obrigado a dispensar o convite, porém, garantiu a atleta na seletiva do Pan Americano, no próximo ano.
Tamara é de família humilde. Mora no bairro Jardim Aeroporto III e teve seu primeiro contato com uma quadra e bola de vôlei quando tinha 10 anos de idade em escolinhas do bairro. O seu tamanho e “QI” esportivo chamou à atenção de uma professora que conseguiu convencê-la que poderia ir mais longe. Então, aos 13 anos, passou a fazer parte da equipe da AABB (Associação Atlética Banco do Brasil).
Se dependesse da razão, a jovem jogadora não teria conseguido continuar treinando. A falta de recursos financeiros para pagar passes de ônibus foi o maior gargalo. A professora a ajudava, mas não era suficiente. A sua amiga, do mesmo bairro, com a qual treinava junto, “entregou o jogo” (deixou de treinar), assim como a sua irmã (ex-jogadora da equipe de Franca Mayra Ábila). Mas seu instinto de esportista falou mais alto. “Saía correndo da escola (às 12 horas), ia em casa, “engolia a comida” e ia (para o treino no Champagnat) sozinha, a pé, na maioria das vezes correndo (média 7 Km). Isso por um ano e meio”, desabafou a filha caçula de uma pensionista por invalidez, mãe de sete filhas.
Em um piscar de olhos, e sem saber relatar, a situação de Tamara mudou. Hoje, ela faz parte de uma equipe de ponta da cidade e se destaca entre as 14 integrantes. Isso lhe rendeu benefício como bolsa de estudos em escola particular (Soberano) para cursar ensino médio, bolsa atleta no valor R$ 500 (com este paga o transporte e ajuda a mãe) e almoço todos os dias. “(Ela é) Uma menina humilde que não conseguia medir a sua importância, mas aos poucos vamos mostrando para ela que através do esporte poderá conquistar muitas coisas. Talvez, se não a descobríssemos e tivéssemos dado oportunidade, seria mais um talento perdido, assim como vários em Franca”, finalizou Silveira.
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