Pedro Xapuri e sua história com o líder Chico Mendes


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No Acre, Pedro Rocha, assentado do Horto Boa Sorte em Restinga, conviveu com o líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988
No Acre, Pedro Rocha, assentado do Horto Boa Sorte em Restinga, conviveu com o líder seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988
Ele esteve sentado na mesma mesa com figuras importantes e notórias da política e da história recentes do Brasil. As mãos calejadas e sujas indicam que o trabalho, apesar da idade, ainda é duro. Com a mulher, Alberina, com quem já está junto há 40 anos, foi de Norte a Sul do Brasil atrás de sustento e da realização de sonhos, mas acabou envolvido na defesa de direitos que não eram só seus.
 
Pedro Rocha, 69 anos de idade, seis meses de estudo formal, é, para todos os fins, Pedro Xapuri. Adotou o nome na cidade no Estado do Acre mundialmente conhecida após a morte do líder seringueiro Chico Mendes, em 22 de dezembro de 1988.
 
Os dois foram amigos. No caminho de Pedro Xapuri ainda estava uma certa Marina Silva, analfabeta até os 16 anos, recém-saída da floresta para a capital, Rio Branco. 
 
Nascido em Jaguaretama, no interior do Ceará, onde quando se falava em seca lá já estava muito seco, fazia parte de uma família numerosa, com 12 irmãos. Foi o único que conseguiu estudar. Para o resto, a escola foi o cabo da enxada.
 
Em 1969 deixou o Ceará rumo a São Paulo. Por lá, trabalhou como metalúrgico e em malharias. A estada na metrópole foi uma ponte necessária para o Acre, onde desde sempre ouviu falar do dinheiro que a borracha dava. 
 
Juntou os cacarecos, mais Alberina e Jaqueline e se meteu num ônibus rumo a Rio Branco, numa viagem de seis dias. “Naquela época, a estrada de Cuiabá até Rio Branco só tinha 80 quilômetros de asfalto; o resto era tudo areião. Tinha lugar em que o ônibus não passava de 10, 20 quilômetros por hora. Tinha ponte que eram dois paus para o ônibus passar. O cabra descia e ficava mostrando para o motorista: ‘vem assim, vem assim. Já pensou?”
 
Pelas mãos de Chico Mendes, de quem foi testemunha de casamento, foi lançado na política e no sindicalismo. Com o amigo participou ativamente da defesa dos seringais contra os fazendeiros que desmatavam o Estado e que contavam com o apoio do Poder Judiciário, das polícias e do Governo. “As fazendas era o progresso e a mata, o seringal, impedia esse progresso. A nosso favor, apenas a igreja católica”, disse.
 
Participou da fundação do Partido dos Trabalhadores no Acre e da assembleia que criou a CUT (Central Única dos Trabalhadores), em São Bernardo do Campo (SP).
 
A história aqui é de Pedro Xapuri, mas é também de Alberina, inseparáveis. Enquanto ele extraía borracha e organizava a militância com o companheiro Chico Mendes e tantos outros, ela era a professora de uma turma de analfabetos da borracha.
 
Para os dois, mais que estarem ao lado de Mendes quando ele levou um tiro certeiro de calibre 12 no peito, foi ter convivido com o homem que virou símbolo internacional da luta contra os interesses de grandes fazendeiros.
 
Pedro Xapuri é um dos assentados do 17 de abril, no Horto Boa Sorte em Restinga. O depoimento a seguir, foi dado ao jornal Comércio da Franca quatro dias antes do primeiro turno das eleições para presidente. Algumas das expressões, para preservar a riqueza da fala, foram mantidas como ditas.
 
 
A descoberta dos seringais
Lá no Acre, não sei se você sabe, era tudo assim, dividido em “colocações” de seringal. Era o Estado inteiro. As cidades são todas em beira de rio. Rio Branco, Brasileia, Sena Madureira, Feijó, as mais antigas. Tudo na beira do rio. Não tinha cidade na terra. Era onde os camaradas chegavam, erguiam uma barraca e ali ficavam. Cada navio que chegava ia deixando mais gente.
 
Chegando em Rio Branco, deixei a mulher numa pensão. Fui para Brasileia onde fui encontrar com um rapaz que estava vendendo uma colônia no seringal Palvin, que estava ocupado. O dono deixou de cultivar a seringueira, porque queria vender para comprador do Sul. Naquela época chovia de gente do Sul querendo comprar grandes áreas para desmatar e fazer fazenda. Isso foi em 1976, 1977, quando começou a briga do desmatamento. A terra não valia nada e o Governo do Acre permitiu e incentivou a derrubada da mata. Aí estava aberta a porteira!
 
O governo, por outro lado, deixou de incentivar a produção de borracha, porque passou a ser mais interessante comprar da Indonésia ou da Malásia, que muitas vezes comprava a matéria prima daqui e o Brasil comprava em forma de borracha de volta. Já pensou que história doida!
 
 
A colônia
Comprei uma colônia, que tinha 200 metros por mil metros de fundo. O rapaz que vendeu a terra disse que estava indo para a Bolívia pois era lá que ganhava dinheiro. E depois o “doutor” Dalcídio ia tomar todas as terras mesmo. Dalcídio era quem se dizia dono da área de seringal. Aí bati no ombro dele e disse: “Olha aqui, camarada. Se ele quisesse essa terra, ele estaria aqui trabalhando. Essa terra agora é minha. E para pegar ela de volta vai ter que passar por cima de mim”. Mas eu falei aquilo na empolgação de ver a mata, de ver a terra. Fiquei muito animado. E aí eu não sabia qual era a conjuntura do Estado; quem mandava, quem não mandava. Não sabia como funcionava a política, sindicato, nada.
 
 
Chega Chico Mendes
Fui construindo uma amizade com o pessoal e fui chamado para me associar ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia. Um dia chegou o Chico Mendes, mais o Raimundo de Barros. Chamei os dois para tomar café. O Chico perguntou de onde eu tinha vindo e eu disse que vinha de São Paulo, que tinha sido metalúrgico. Ele gostou, se interessou. Ele achava que naquela época um metalúrgico de São Paulo no Acre era muita coisa porque já estava começando as greves do ABC.
 
O Chico ficou entusiasmado e queria que eu fosse para o sindicato de Xapuri. Ele já era vereador, pelo MDB, e queria melhorar o sindicato, mas não era ligado. Onde tinha luta, ele ia. Era muito preocupado com a situação do seringueiro. O Chico era muito inteligente na observância das coisas. Nunca esqueci desse encontro. Ficou muito bem gravado na minha memória. 
 
 
A crise
Entre 1977 e 1979 os conflitos foram se agravando. Em uma assembleia para a nova diretoria do sindicato de Xapuri, eu fiquei como vice-presidente e o Chico, presidente. Eu era muito metido para falar e enfrentava as coisas. O Chico gostava de mim pela minha disposição. Fomos ficando amigos. Ele vinha em casa e quando eu ia para Xapuri acabava dormindo na casa dele. Era uma amizade forte. A gente fazia parte do mesmo grupo de discussão política e aonde ele ia, me chamava. 
 
Por esse tempo começaram alguns embates. A gente via que era uma injustiça o sujeito nascer, viver e morar num seringal e chegar um cabra do nada dizendo que é o dono daquilo tudo. As terras eram todas devolutas; eles forjavam documentos de posse. O cartório era de amigo. Da noite para o dia o documento de propriedade ficava pronto.
 
 
A luta de Chico Mendes
O Chico já estava marcado para morrer. A polícia não dava segurança nenhuma, pois era pau-mandado dos fazendeiros. Teve muitos casos de seringueiros que foram presos e apanharam porque venderam uma bola de borracha fora do barracão que pertenciam. O dono do seringal mandava prender e bater. Com isso começou a história do Chico, que foi ficando irritado com o que acontecia. 
 
Numa oportunidade em que não conseguimos evitar a derrubada de uma mata, fizemos uma assembleia com o Chico, em luz de lamparina. Nesse momento, ele disse que tinha duas propostas: estava decidido que ia entrar em uma greve de fome. A outra era ocupar no outro dia a sede do IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal), em Xapuri, que liberou a derrubada. Ficamos com a segunda.
 
Da sede do instituto, minha mulher e as crianças foram levadas para dormir na casa do Chico. Pouco depois ele me chamou para jogar um baralho, quando a gente soube de tiros no IBDF. Eram os capangas do Darly (Darly Alves da Silva, mandante da morte de Chico Mendes). Dois amigos foram atingidos, justamente no lugar onde eu ia deitar com a Alberina mais as minhas crianças. A polícia sabia quem era, mas não deu um passo atrás deles. Todo mundo se conhecia na cidade. Aí a coisa foi se agravando.
 
 
A primeira morte
O primeiro a ser morto foi o companheiro Wilson (Pinheiro), do sindicato de Brasileia. Mas na lista estavam o Chico, padre Cláudio, de Xapuri, dom Moacir, bispo de Rio Branco. E a polícia sabendo de tudo.
 
Darly, que era mineiro, tinha chegado em 1975, mais ou menos, vindo do Paraná. Era uma família esquisita a dele. Ninguém podia falar nada contra que morria em emboscada. E foi isso o que fizeram com o Chico. Trabalhamos a segurança dele, mas num descuido eles mataram. Confiamos muito na polícia.
 
No dia que mataram o finado Wilson Pinheiro, em 1980, ele estava dentro do sindicato assistindo televisão. Quando fiquei sabendo, saí para a estrada e vi uma caminhonete que parou para me dar carona. Dentro estavam o Lula, o Jacó Bittar e o Chico Mendes. Fomos para Brasileia, onde teve um ato público. Com a repercussão, os fazendeiros deram uma recuada. Em 1985 e 1986 começaram as ameaças de novo, a perseguição.
 
 
A morte de Chico Mendes
No dia da morte do Chico, eu e Alberina saímos para Xapuri e o primeiro lugar que fomos foi a casa dele. Na frente tinha um caminhão enorme, que tinha sido liberado pela Fundação Ford.
 
Ele tinha acabado de chegar do Rio de Janeiro e de Piracicaba, quando revelou que estava recebendo ameaças e que sua cabeça ia rolar até o Natal. Isso foi no dia 22 de dezembro.
 
Voltando para Xapuri, eu e Chico ficamos conversando e demos uma deitada no chão de tábuas da casa para descansar um pouco. Rapidinho ele roncava. Eu precisei sair depois porque precisava pegar umas coisas no mercado. A Alberina, que além de professora, era agente de saúde, também precisava de uns medicamentos para o posto de saúde. 
 
Ao voltar encontrei com outro conhecido, João, quando vi o policial da casa do Chico atravessando a rua correndo, com a mão na arma. Chegando na casa, as mulheres estavam desesperadas no quintal. No quarto ele estava ainda acordado. Tinha uma toalha de banho no ombro e onde o tiro acertou parecia que uma vaca tinha mastigado de tanto chumbo. Os olhos estavam arregalados. Ainda saí correndo pela rua achando que podia encontrar quem tinha atirado.
 
 
Um só tiro
Acertaram o Chico quando ele abriu a porta da cozinha para ir tomar banho. O banheiro ficava do lado de fora da casa. A porta abria para fora, e estava muito escuro. A lâmpada sempre queimava. Ninguém desceu na frente dele para verificar. 
 
Quem atirou ficou aguardando atrás do banheiro. A distância para a porta da cozinha era de menos de três metros. Foram 62 caroços de chumbo de calibre 12 no corpo dele. Dois acertaram o coração. 
 
Alberina foi a pessoa que ouviu as últimas palavras de Chico. E ele falou: “Puxa, vida. Me acertaram”. Ajudei a colocar o Chico dentro da cabine do caminhão. Segurei para ele não balançar muito, mas ele morreu no caminho do hospital. Eu peguei ele sozinho no braço; quase 90 quilos. Às 5 horas da manhã entrei na sala e vi o corpo do Chico aberto, com o coração à mostra.
 
 
Novamente São Paulo
Poucos dias depois vim para São Paulo, porque minha sogra estava passando mal. A família não deixou a Alberina e as crianças voltarem. Eu não queria abandonar minha terra. A Alberina, com os dois empregos, às vezes era quem me mantinha. Decidido a vir para São Paulo, não queria ficar na capital. Ou a gente ia pro interior, ou voltava para o Ceará. Vendemos o que tinha no Acre. Passei a terra para um cunhado.
 
Conheci pessoas na CUT ligadas ao Sindicato dos Sapateiros de Franca. Vim aqui, conheci mais gente. Fomos ficando em uma chácara, onde trabalhava como zelador. Fiquei até uns tempos escondido, porque eles se preocupavam comigo. O clima estava muito tenso no Acre. Comecei a tomar conta da Horta Municipal, onde fiquei quase um ano. Todo mundo gostou porque a produção foi boa. Em 1º de janeiro de 1998 nós ocupamos o Horto Boa Sorte (em Restinga). Eu não fazia parte do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), mas queria um lugar que fosse nosso. Já estou aqui há 16 anos.
 
 
Marina Silva
Uma das primeiras pessoas a falar do PT para mim foi o Chico Mendes. Posso dizer que fui um dos fundadores do partido, em São Bernardo do Campo. A gente participava de um grupo político que a Marina fazia parte. Viemos em 27 companheiros para São Paulo para fundar a CUT e a Marina estava no meio. 
 
Comprava fruta para ela na viagem. Não sei se ela já era professora, porque até os 16 anos ainda era analfabeta. Ela foi para Rio Branco e se aproximou das comunidades eclesiais de base. Eu conheci ela pela primeira vez quando ocupamos o Banco do Brasil em Rio Branco. Tinha uma imagem desnutrida, mas muita garra. Chamou a atenção. Eu gostava das falas dela. Apesar de conhecer bem de novinha, não votei nela para presidente. 
 
 
História de toda uma vida
Eu tenho prazer de contar essa história, porque foi uma história coletiva, mas muito mais por ser uma história nossa. Namoramos oito anos para poder casar, tivemos quatro filhos, três acreanos e uma paulista. Quarenta anos de casados. Essa companheira me ajudou em tudo. Não podia ter sido melhor. E se tiver uma reencarnação e a gente voltar, eu vou casar com ela de novo.
 
 
A luta por direitos dos outros
Eu sinto orgulho de tudo, de cada passo que demos. A gente não vem ao mundo só para ser servido. E quando você serve a alguém, significa que há outra pessoa precisando da sua ajuda. Esse passado de luta minha é muito gratificante. Aprendi muito, construí muito. As árvores que nós plantamos que hoje estão de pé. Deixamos muitos rastros para trás. Resumindo, sou uma pessoa feliz. Considero esse meu lugar um paraíso, e se tem outro não conheço. 

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