Vive La résistence! CDA: o reduto dos roqueiros e motoqueiros em Franca


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Willian Fontellas comanda o CDA, barzinho de rock na avenida Champagnat, reduto de roqueiros e motoqueiros e ponto de resistência ao avanço e massificação de gêneros como o sertanejo e pagode
Willian Fontellas comanda o CDA, barzinho de rock na avenida Champagnat, reduto de roqueiros e motoqueiros e ponto de resistência ao avanço e massificação de gêneros como o sertanejo e pagode
No dia 11 de outubro, sábado, um evento aberto ao público no Parque “Fernando Costa” anunciava que haveria diversos atrativos para a criançada comemorar seu dia. Dia bonito, calor, levei minha filha de sete anos logo cedo para que ela pudesse aproveitar um pouco. 
 
Logo na entrada meus ouvidos já começaram a me advertir que aquela não tinha sido uma boa ideia. Ainda assim insisti porque a programação era para o Dia das Crianças e não para adultos rabugentos. 
 
Tudo bacana, pula-pula, cães adestrados e picolé de graça, embora fosse de limão, maracujá, laranja ou uva e tivesse praticamente o mesmo gosto. 
 
Enfim, vamos nos divertir? Foi o que disse à minha filha, mas não teve jeito. A música sertaneja de quinta categoria que uma singela dupla - não fiquei para ver se vieram outras - insistia em cantar era de uma tristeza só. Meio playback, meio karaokê, não deu para identificar que coisa horrível era aquela que insistia em me azucrinar.
 
Não fui o único a me sentir desconfortável em um evento para crianças em que não se tocou música para crianças. Um expositor de carros antigos, gritou “amém”, quando um dos cantores anunciou que pararia por uns instantes.
 
A sensação que deu foi essa de alívio. Mas reconheço que se sentir aliviado de música sertaneja em Franca é pedir demais. O estilo está em todos os lugares para onde se aponte o ouvido. Nas caminhonetes, na porta de lojas para atrair clientes, nos churrascos, em qualquer evento público ou privado. 
 
É o som das massas, que tomou tal proporção graças ao empurrãozinho da mídia, do apelo das letras fáceis. Daria para listar uma fileira de argumentos que levaram o sertanejo a ser onipresente.
 
Em Franca, a ligação é histórica, mas para a salvação daqueles que odeiam pensar em “tchê, tchê, tchê, tchá, tchá, tchá”, a resistência atende pelo nome singelo de CDA, o bar de roqueiros, motoqueiros e afins localizado no alto da avenida Champagnat e comandado há cinco anos por Willian Fontellas, 32, ex-técnico de informática e contrabaixista autodidata. 
 
Bandas de rock, heavy metal, a história do gênero, o apreço por blues e o desprezo por essa música sertaneja atual foram alguns dos sentimentos que compartilhamos nesta entrevista. Vive La résistance, como diriam os franceses frente ao opressor alemão. Viva o rock!
 
Como um gênero musical tomou conta de um País inteiro, sem deixar brecha para mais nenhum?
É um gosto de massa, culpa dessa indústria fonográfica, que quer vender cada vez mais. Tem cara ‘foda’ por trás disso. E eles sabem que se pegar três acordes, marcantes, vão levar público. Para mim, no entanto, o rock é uma paixão que tenho desde a minha infância, porque cresci ouvindo rock. Lembro que meu irmão ouvia A-Ha, Cyndi Lauper. No meio tocava umas coisas como Bon Jovi, Europe, Twisted Sister. Então comecei a me identificar com o som. Na escola já tinha os amigos que gostavam de metal pesado e por aí foi. Hoje em dia ouço rock de várias vertentes, até mesmo porque o CDA é bar de rock. Sempre me identifiquei muito porque não me sentia preso a nada. Sempre tive muita liberdade e de uma forma muito boa. O rock me ajudou muito, de várias maneiras. Aprendi inglês para entender, aprendi história.
 
Para você qual o papel do CDA dentro de uma cidade que praticamente só ouve sertanejo e pagode?
O bar está com cinco anos. Não estamos tentando, estamos fazendo. O CDA já teve bandas de vários países, muitas bandas autorais. A galera vem porque gosta de tocar aqui. Querendo ou não, dentro desse cenário, a galera anima de montar uma banda, comprar um instrumento, porque sabe que pode tocar aqui. Acho que a gente faz um papel cultural importante.
 
Em Franca é o único que existe? 
No segmento rock é o único hoje. 
 
Quem forma o público que vem aqui? É o entendido, o curioso? Tem quem esteja perdido e entra assim mesmo?
Aqui é aberto para todo mundo. No começo tinham uns estigmas. Uns queriam saber se tinham que ir de preto. Você vai do jeito que quiser, meu amigo. Ninguém vai se preocupar sua vida. A galera do rock é assim, sem muitos preconceitos na cabeça. Mas aqui vem qualquer tipo de público. A maioria é entendida. Vem um ou outro perdido, mas não tem problema porque curte do mesmo jeito. Tem gente que entra aqui com o pé atrás e depois se surpreende, acha legal. Tem gente que fala: ‘lá eu não vou’, ‘lá o pessoal é do capeta’. Já ouvi muito disso. De repente as pessoas começaram a frequentar. 
 
Por que existe certo preconceito com o rock ou o punk, por exemplo, e não existe com o sertanejo, com o pagode? 
Acho que esse preconceito caiu muito hoje em dia, até mesmo pela overdose de informação na internet. O rock sempre foi muito despojado, muito rebelde, contestador. Não seguia uma religião. Mas aí você pega esses gêneros e vê que até entre aqueles que curtem o sertanejo raiz ou o pagode mais tradicional têm preconceito com essa música que está aí. Acho que hoje tem que ser bem ignorante para sair falando sem pesquisar antes.
 
E o que isso te ensinou?
Na verdade influenciou em muita coisa. É o meu estilo, tem a ver com meu gênio. Desde a não baixar a cabeça para ninguém, olhar sempre para frente. Se estou certo, estou certo e ponto. Não importa se o mundo está contra mim.
 
Você disse que gosta de black metal, que é um estilo muito pesado, para um público mais restrito. Sobra espaço para sons, digamos, mais suaves?
Claro, gosto de bandas progressivas dos anos 1960, 1970. Gosto muito de blues, jazz. Para chagar a um heavy metal é questão cultural, de ir ouvindo. Uma hora você identifica uma distorção, outra hora um timbre da guitarra. Não é questão de evoluir, mas questão de se identificar.
 
Se chegar uma banda que toque puramente jazz você abriria espaço para ela?
Sim. A gente criou a Quinta B e a última apresentação foi do Seu Oripe, grupo de Franca, que já tocou na Suíça, Holanda, mas isso ninguém fala. Se for a dupla Zé Roela e Roelinha, que toca ali em Ibiraci, sai em todo lugar. Começamos com uma banca mexicana, uma mistura de soul, jazz, rock. E está tudo ligado a rock.
 
Você estudou música?
Não estudei. Toco contrabaixo, mas como hobby, como diversão. Aprendi sozinho, pegando livros. Diferente de outros músicos aqui de Franca, muito bons, com formação mesmo e que tocam aqui no bar. Sempre fui um apaixonado pela música. E essa paixão surgiu ouvindo rock.
 
Você falou de bandas que se apresentam aqui. Elas sobrevivem dessas apresentações?
Sobrevivem e muito bem. Aqui lançamos tendência, mas literalmente compartilhamos o pão aqui no CDA. Temos um bom relacionamento porque pagamos legal para os músicos. Pode sair perguntando: eles gostam de tocar aqui, porque gostam de tocar rock.
 
Seja aqui no Brasil seja nos Estados Unidos, berço do rock, o gênero está muito distante do que as pessoas ouvem, do que toca em rádios ou aparece em televisão. Na sua opinião, o rock acaba um dia?
Jamais. Esse papo é ultrapassado. O rock sempre ressurge. Olha o tanto que é atual. Você não encontra um menino de 15 anos com uma camiseta do Roberto Carlos, mas encontra com uma do Iron Maiden, que é de 1978. Nunca vai morrer. Você tem Rock in Rio, Monsters of Rock, eventos que levam milhares de pessoas. Os Rolling Stones juntaram dois milhões de pessoas no Rio de Janeiro na praia. 
 
Em 1983, o rock brasileiro vivia o auge das bandas, com Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Plebe Rude, Capital Inicial. Depois disso teve Raimundos, Cachorro Grande, Garotos Podres, Ratos de Porão. Após esse período, quem hoje representa o rock aqui?
Acho que foram surgindo umas e outras reaparecendo outras. O Capital Inicial mesmo voltou no final dos anos 1990...
 
Mas o Capital Inicial é ‘roquinho’ de sessão da tarde, não é?
Eles se adaptaram ao mercado, mas não deixam de fazer a parte deles. É difícil eleger uma que represente. Dentro do metal a gente tem várias, como o Krisiun, o Sepultura. Você vai para fora do Brasil e as pessoas te falam que aqui tem Buenos Aires, Pelé e Sepultura. Os caras são foda. Levaram o nome do metal brasileiro para todo quanto é lugar, com grande mérito. No hardcore, mais melódico, também tem. O próprio Titãs voltou agora com a excursão do Cabeça Dinossauro.
 
Mas eles estavam numa fase bem melosa...
Pô, acho que nem eles aguentavam mais ter que tocar Epitáfio, e Pra Dizer Adeus. É como o Los Hermanos, que só são lembrados por Ana Júlia. Ninguém aguenta mais. Os Titãs foram se reinventando. Vieram aqui na Expoagro e a galera que foi lá para ouvir baladinha saiu reclamando. O rock nacional tem letras políticas e está muito ligado ao momento em que o País passa.
 
Teve um ano que o Cachorro Grande, do Sul, se apresentou para um público bacana lá no Pedrocão...
Foi na Virada Cultural. Foi bacana mesmo. Eu estava lá. Depois, no ano seguinte, colocaram Ultraje a Rigor e Ratos de Porão no mesmo evento. Meu, acho que erraram quando digitaram o nome da cidade. Vai que era um para Franca e o outro para Franco da Rocha, sei lá. Sei que os dois vieram. Foi demais para a cidade. Ainda mais de graça.
 
Como é a programação do bar ou a busca por bandas de fora para se apresentarem aqui?
Através de vários parceiros que tenho. Hoje em dia, dentro e fora do Brasil. No underground todo mundo se ajuda. Uma banda vem aqui perto, já coloca para vir ao bar para baratear custos. É assim. A agenda está cheia até o final do ano e começo de 2015. Tem os amigos e músicos de Franca. 
 
Que região no Brasil concentra o que existe de mais representativo no rock brasileiro hoje?
O Sul eu acho que tem bastante, mas é São Paulo que lidera. Não tem jeito. É para aonde todo mundo vai. No País inteiro tem. A primeira banda de heavy metal brasileira, Stress, é do Pará. Fora de eixo e fora de época. Em 1975 eles já tocavam.
 
Em Franca quantas boas bandas existem?
São muitas, mas muitas mesmo. Se você pegar um exemplo o The Wanteds que estão há 15 anos na estrada, tocando rock, com quatro CDs. Mister Magoo, que está aí no bares. Tem banda de Franca que tocou na MTV. Tem várias. Tem de underground, que tocam para um público restrito, mas tocam em vários países.
 
Uma banda dessa, de rock mais pesado, ela sabe que nunca vai ter um grande público. Para ela isso está bom ou imaginem um dia chegar à grande mídia, ir parar no Domingão do Faustão?
Não almejam isso, até porque sai do projeto delas. Elas querem pessoas verdadeiras, que curtam o que tocam. No mundo inteiro tem muita gente que gosta. Até o blues é assim. Coloquei uma banda de blues aqui uma vez que deu, não sei, 20 pessoas. Mas eram 20 pessoas que estavam aqui porque gostavam do estilo e queriam ouvir boa música. Isso é legal, porque às vezes tem mil que não sabem onde estão.
 
Vamos imaginar que no fim do ano você está sem dinheiro até para pagar a energia do bar e um grupo de pagode ofereça três meses de aluguel para poder tocar aqui...
Ah, fecho o bar, meu! Porque não tem sentido pensar diferente. Até como empreendedor, porque meu público é fiel. Vou fazer outra coisa. Não tem nexo um grupo de pagode se apresentar aqui, até porque o público deles não vai vir aqui e nem o meu.
  
Quando é que você acha que a Expoagro será fechada para um concerto de rock em Franca?
Na verdade, não espero não; vou atrás. Tem gente se organizando para fazer um evento, trazer bandas maiores. Fico um pouco cauteloso quanto a isso porque isso é um processo. Franca tem clima de província e muita gente vai num lugar para acompanhar outra pessoa. Agora acho que está caminhando um pouco diferente. Aqui no CDA era sempre a mesma galera e agora começa a aparecer um público diferente. Vai quebrando o preconceito.
 
Quer dizer que se eu entrar aqui de chapéu, fivelão e calça por dentro da bota ninguém vai me olhar de cara feia?
Até acho que vão te olhar meio estranho, mas não vão te hostilizar.

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