‘Qualquer médico consciente tem dificuldade em lidar com a perda’


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Aniette Renom, nascida em Camagüey, Cuba, formou-se no final de 2001 e em março do ano seguinte já embarcava para o Brasil
Aniette Renom, nascida em Camagüey, Cuba, formou-se no final de 2001 e em março do ano seguinte já embarcava para o Brasil
Na última quinta-feira, a endocrinologista Aniette Renom estava ansiosa para sua costumeira aula de pilates, quando recebeu a reportagem do Comércio em seu consultório para uma conversa que não deveria durar mais que 30, 40 minutos e na qual falaria, entre outras coisas, sobre a profissão de médica, cujo dia é comemorado hoje. 
 
Diante de tantos questionamentos e, mais do que isso, com um olhar bastante peculiar sobre a profissão, a conversa com essa cubana, mãe das gêmeas Lorena e Amanda, sete anos, e que há 12 escolheu Franca, junto com o marido Keller Oliveira Rosa, também médico, para viver, passou de uma hora e meia.
 
Aniette, nascida em Camagüey, formou-se no final de 2001 e em março do ano seguinte já embarcava para o Brasil, onde começaria a trabalhar 12 anos atrás, muito antes de o Brasil chamar compatriotas seus para “socorrer” a saúde pública no País.
 
Aspectos conceituais, de formação, financeiros, de prática profissional e do próprio entendimento da profissão são algumas das diferenças mais marcantes entre a medicina cubana e a brasileira. 
 
Às dificuldades iniciais, como a saudade do país de origem, hoje já superada, como garantiu, mesmo com um grande sentimento de culpa, se somaram outras, práticas e leis, ligadas ao trabalho no Brasil. 
 
Como as instituições brasileiras não reconheciam o diploma de origem, mesmo sendo Cuba uma referência mundial em medicina, Aniette precisou de provas de equivalência em Cuiabá (MT) e exame de língua portuguesa em Campinas para poder trabalhar, o que ocorreu como médica da família em Patrocínio Paulista.
 
Para todos os sentidos, sua vida está dissociada da realidade cubana. “No sentido pragmático, posso dizer que é aqui em Franca que eu construí minha família, um círculo de amizades muito forte com amigos de primeira mão”, disse. “Terminei meu processo de formação em Cuba, mas lá não tive carreira lá. Minha vida profissional está sendo no Brasil. Precisei me desprender para dar espaço a coisas novas”, acrescentou ela, antes de ler poemas do compositor francano Paulo Gimenez e do cubano José Martí com a mesma empolgação.
 
A “importação” de médicos cubanos era assunto praticamente obrigatório e, sobre isso, Aniette Renom disse acreditar que o programa do Governo Federal é uma grande chance para eles. Pessoalmente, porque terão a oportunidade de conhecer outra cultura e um sistema econômico, e profissionalmente porque terão contato com uma medicina fracionada, em que cada especialista é “dono” de uma parte do corpo do paciente. 
 
O relacionamento médico-paciente também pode surpreender. Nesse ponto, cubanos e brasileiros seriam muito diferentes, com os primeiros mais questionadores e com conceito maior de educação sanitária e de saúde.
 
“No Brasil você sente a fragilidade completa do paciente, da população que é carente de informação. Aqui o paciente está à mercê do médico”, pondera a médica. “Vejo na minha frente uma pessoa ingênua, que eu seria capaz de manipular do jeito que eu quisesse, da maneira mais inescrupulosa, sem que ela nem percebesse.”
 
Desconsiderando o viés político do programa, Aniette disse ter dúvidas sobre sua duração. Para ela seria melhor traçar uma estratégia com as principais universidades públicas, que são a principal estrutura formadora de médicos no Brasil, para que pudessem atender, de forma organizada e estratégica, regiões mais distantes, com um programa que obrigasse o residente a passar por um período de um ou dois anos nesses lugares. 
 
Mudanças de valores
As constantes alterações na grade curricular dos cursos de Medicina no Brasil, especialmente nas instituições públicas, estariam, segundo sua opinião, contribuindo para uma mudança lenta e gradual na formação médica, dando ênfase à importância da interação com outras profissões (enfermeiras, terapeutas, nutricionistas e fisioterapeutas, entre outros).
 
“O médico egresso de uma faculdade pública hoje vem com uma maior noção de medicina comunitária. São passos tímidos, mas importantes na formação, muito diferente do perfil de 20, 25 anos atrás, quando ele tinha praticamente a certeza de ser Deus, concentrando a tomada de decisões, o poder pelo poder”, avaliou. “É um processo que ocorre no mundo todo.”
 
Pela menos na última década, ela entende que a medicina baseada em evidências mudou a realidade encontrada nas faculdades, onde um professor (catedrático) assumia uma determinada disciplina e dele partiam todos os entendimentos, ditando protocolos e condutas. Hoje dizer não basta. É preciso provar que funciona.
 
E como não é possível falar em médicos sem tocar no imaginário popular de que muitos desses profissionais são corporativistas, frios e até insensíveis diante da necessidade e dor do paciente, Aniette fez algumas considerações sobre o assunto. 
 
Para ela, a questão é complexa e precisa ser destrinchada. “Primeiro é preciso dizer que existem médicos sem compromisso, sem amor à profissão, sem estudo diário e sistemático, sem sensibilidade, que demoram a checar resultados que poderiam mudar a realidade do paciente, que negligenciam o atendimento, maltratam o doente e os familiares. Mas isso existe aqui, em Cuba, e acredito que em qualquer lugar do planeta.”
 
De maneira reversa, ser atendido em consultórios particulares ou ter um plano de saúde não significa que a pessoa será mais bem tratada que num hospital público. O problema estaria nas condições de contratação e de trabalho desse profissional. Existem, conforme apontou, atendimentos simples que deveriam ser feitos em uma unidade básica, mas que lotam o pronto-socorro. “É médico que chega e precisa esperar o colega terminar o plantão para poder sentar na mesma cadeira porque não tem espaço físico para todos”, disse. “Porém isso não pode ser justificativa para se embrutecer, tratar mal as pessoas, que muitas já estão fragilizadas nesse momento.”
 
Rotina de trabalho
Como outro grande problema hoje é o excesso de horas trabalhadas, em vários locais e que em Franca acabou redundando em uma comissão de investigação na Câmara, criada para averiguar os pagamentos aos médicos da rede municipal, a endocrinologista acha que é preciso encontrar um meio termo entre qualidade de vida e a necessidade de se manter financeiramente. 
 
Do ponto de vista ético e profissional, a médica Aniette acha que é imoral um gestor propor ao médico que ele dobre seu plantão quando se sabe que o profissional acabou de encerrar 24 horas de trabalho. “Tem a imoralidade de quem propõe e a imoralidade de quem aceita, porque depois de um plantão você está sem capacidade de discernimento, você precisa dormir, mas acontece que o sistema favorece isso. Chega num determinado horário e não tem quem possa substituir. Mas quem é íntegro vai preferir ganhar um pouco menos e ir para a casa descansar, conviver com a família. Fundamentalmente os mais novos não aceitam essas condições.” 

Médica espírita
Em seu perfil numa rede social, são várias as menções e indicações de que a médica Aniette tem especial curiosidade pelo espiritismo. Questionada se não seria uma contradição em relação à profissão que escolheu, ela respondeu que não acha, para emendar: “mas a vida não é cheia de contradições?”.
 
Para ela, o espiritismo, ainda mais as teorias de “quase morte”, mais que uma fuga é, como disse, uma bengala para enfrentar o dia a dia da profissão, onde lidar com o fim da vida é tão natural quanto sua continuidade. Ao confessar que se sente muito mal com a perda de um paciente, Aniette diz que recorre à terapia para minimizar esses impactos e que precisa aprender que “não pode tudo”. 
 
“É bastante desesperador quando perco alguém. É da minha personalidade e preciso trabalhar isso. Fico buscando justificativas, tentando imaginar se tivesse optado por um caminho o resultado seria outro”, disse. “O médico consciente tem dificuldade em lidar com isso. É um sentimento de desolação, de frustração, de incompetência, mas é preciso respeito porque muitas vezes não se tem mais o que fazer.”
 
Por outro lado, se existe saída e ela está ao alcance, é preciso encorajar o paciente. “Medicina é biologia e não matemática. Quantas vezes dois mais dois não dá cinco?”

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